Reconhecendo quem manda

Prontos para a jornada: um novo tempo exige de nós uma nova postura

Foto de Leah Kelley no Pexels

Na última sexta-feira, 19 de novembro de 2021, Deus recolheu para si o Reverendo Zwinglio Mota Dias. Pastor presbiteriano, um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Unida, foi uma das principais vozes, ao lado de Rubem Alves, João Dias de Araújo, Claude Emmanuel Labrunie, Jaime Wright e tantos outros, a se levantar contra a opressão, morte e desmandos da ditadura em nosso país. Foi pastor num período crítico da nossa história, cercado de opressão e perseguição. A história deste período da vida do Rev. Zwinglio é a história do cristianismo em muitos períodos de sua jornada.

A série de mensagens deste mês se propôs a falar de uma jornada que se apresenta diante de nós. Há uma enorme expectativa com 2022, pois será o ano do retorno, da retomada, da reconstrução.

Prefiro olhar como um novo ciclo, um momento em que teremos uma jornada de adaptações e redescobertas, por isso, convido você a pensa comigo neste novo momento, olhando para dentro de casa, enfrentando as dificuldades e reconhecendo quem é que manda em todos os ciclos temporais que vivemos. Prontos para a jornada, nossa série de mensagens de novembro de 2021 conversa sobre estas três etapas fundamentais para que 2022 seja diferente.

E, como toda jornada, enfrentaremos dificuldades ao longo dela, mas temos uma pessoa conosco que está acima de todo e qualquer obstáculo, sendo quem realmente manda.

O texto de nossa meditação de hoje é fruto de um contexto de profunda perseguição estatal e religiosa. O Apocalipse não é um texto sobre o futuro, mas sobre o presente, o momento em que o apóstolo e as igrejas viviam. Ouso dizer ser o livro mais mal interpretado da Bíblia, mas penso que Daniel também entra nessa disputa. A literatura apocalítica sempre desperta interesse.

O fim dos tempos. Pare para ler o Apocalipse na perspectiva do presente, não do futuro, e você compreenderá que as imagens, visões e palavras de esperança ali contidas falam muito mais sobre o que é real e palpável do que sobre o sobrenatural. Vamos, então, ler Apocalipse 1.4–8

4Eu, João, escrevo às sete igrejas na província da Ásia.

Graça e paz a vocês da parte daquele que é, que era e que ainda virá, dos sete espíritos que estão diante de seu trono, 5e de Jesus Cristo. Ele é a testemunha fiel destas coisas, o primeiro a ressuscitar dos mortos e o governante de todos os reis da terra.

Toda a glória seja àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados por meio de seu sangue. 6Ele fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai. A ele sejam a glória e o poder para todo o sempre! Amém.

7Vejam! Ele vem com as nuvens do céu,
e todos o verão,
até mesmo aqueles que o transpassaram.
E todas as nações da terra
se lamentarão por causa dele.
Sim! Amém!

8“Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus. “Eu sou aquele que é, que era e que ainda virá, o Todo-poderoso.”

O trecho que lemos é o que se pode chamar da segunda abertura de apocalipse. A primeira, dos versos 1 ao 3 são chamadas prólogo, muito parecida com a abertura de alguns livros do Primeiro Testamento. Agora, no verso 4, temos uma típica de carta do Novo Testamento: autor se identifica e aponta os destinatários.

Aqui temos sete igrejas da Ásia, atual oeste da Turquia, identificadas posteriormente no verso 11: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Embora identificadas, o número sete carregava consigo, à época, o sentido de plenitude, indicando então, não necessariamente as 7 nominadas no verso 11, mas a todas as igrejas da região.

Seguida a autoria e destino da carta, temos a saudação de abertura, típica do Novo Testamento, “graça e paz a vós outros”, seguida de uma fórmula de eternidade que remonta a Êxodo 3.14: daquele que é, que era e que ainda virá. Javé — Eu sou o que sou — ao que o judaísmo posterior identificará como Deus era, é e será. O texto, no entanto, não aponta para o passado, nem para o futuro, mas para o presente. É o agora, o momento da carta, que importa. É onde Deus está e agirá.

Seguida à fórmula da eternidade estão os sete espíritos que estão diante de seu trono. Quem, ou o que é? Muito se especulou, ao longo do tempo, se não seriam anjos. Não, não são. Percebam o contexto. Da parte de Deus — que era, que é e que há de vir, JAVÉ — e após os sete espíritos é mencionado Jesus. É muito mais aceitável que tomemos o termo “sete espíritos” como um indicativo de plenitude do Espírito Santo e apontemos para o próprio Espírito de Deus, do que apontar para qualquer outro ser celestial, que em nada teriam com o Pai e o Filho neste contexto.

A partir daí, o nosso texto se concentra nos atributos e feitos de Jesus Cristo:

Ele é a testemunha fiel: defendeu o evangelho não apenas com palavras, mas com a própria vida;
Ele é o primeiro a ressuscitar dos mortos: Jesus é o primeiro a vencer a morte, que não tem mais domínio sobre ele;
Ele é o governante de todos os reis da terra:
ele é o senhor de tudo o que há, todo o poder está em suas mãos. João está aqui contrapondo o poder de Jesus ao poder deste mundo, não há quem possa resistir ao governante de todos.

João passa então, a partir deste ponto, a exaltar a grandiosidade dos feitos de Jesus e a soberania que Deus concede ao Filho para reinar sobre tudo o que há.

É olhando para este cenário de apocalipse 1.4–8 que vamos compreender que nossa jornada não está restrita a mais um ano que se inicia, mas sim, é uma jornada eterna, por isso, compreendemos que a morte não é o fim, pois Jesus venceu a morte e com ele a venceremos.

Venceu a morte.

Ele é a testemunha fiel destas coisas, o primeiro a ressuscitar dos mortos e o governante de todos os reis da terra. João está escrevendo a comunidades cristãs cercadas de perseguições por todos os lados. O império, com força e repressão, tolerava cada vez menos os cristãos. As comunidades locais, inflamadas pelo império e religiões dominantes, hostilizavam cada vez mais os cristãos.

Neste cenário onde a morte está suspirando nos ouvidos, de tão próxima, é que João inicia sua carta dizendo que a testemunha fiel da obra de Deus, Jesus Cristo, é o primeiro a vencer a morte e, tendo-a vencido, governa sobre tudo o que há.

Os poderes do império, do governo local e das religiões nada são diante do poder daquele que venceu a morte. Esta vitória possuí dimensão eterna e se manifestou, se manifesta e ainda se manifestará.

Aquele que é, que era e que ainda virá não é apenas um recurso de escrita da carta para fazer menção a Deus, mas principalmente nos dá a dimensão da obra salvadora de Deus para a humanidade.

A salvação veio em Jesus, que venceu a morte e ressuscitou.

A salvação vem, pois, ainda experimentamos a morte, mas ela não terá mais domínio sobre nós.

A salvação virá, pois, nossa esperança está naquele que virá com as nuvens do céu e todos o verão.

O imediatismo de nossas vidas nos faz perder a dimensão eterna de nossas existências. Muitos de nós estamos preocupados com a viagem, em tirar o atraso do lazer não vivido durante a pandemia, em ocupar a agenda com compromissos que não vão semear o que é eterno, mas passageiro.

O tempo passado é passado, não volta, não se recupera nem se tira o atraso dele. Passou, esvaiu-se. A pergunta que fica é: o que fazemos com o presente? A resposta está em Cristo. Hebreus 13.15 nos aponta a direção: “Assim, por meio de Jesus, ofereçamos um sacrifício constante de louvor a Deus, o fruto dos lábios que proclamam seu nome”. Jesus se sacrificou para nos dar vida, não a desperdice.

Sacrificou-se.

Toda a glória seja àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados por meio de seu sangue. A vitória da vida sobre a morte não veio a preço de pirotecnia e efeitos especiais. Veio a preço de sangue. Fomos libertos das amarras do pecado pelo sangue de Jesus. O custo é imensurável. O efeito é eterno. Para nós, graça sem medida. Para Jesus, amor em forma de entrega.

Perdemos a dimensão do sacrifício de Jesus. Sempre que tratamos a vida como algo secundário por conta dos prazeres que fugazes momentos podem nos proporcionar, deixamos de lado o sacrifício de Jesus.

Tudo, absolutamente tudo o que fazemos é para agradecer, honrar e glorificar aquele que nos ama e nos libertou dos nossos pecados. Fazemos isto não apenas mantendo a comunhão e o ensino apostólico, na presença na Igreja, que é importantíssima para o desenvolvimento da maturidade cristã. Agradecemos, honramos e glorificamos a Jesus quando priorizamos a vida em detrimento das cadeias que insistem em prender as pessoas ao nosso redor.

A fome, a miséria, o pecado são cadeias ao nosso lado. Assistimos os poderosos deste mundo tripudiando sobre os pobres. No Primeiro Testamento, o povo infiel construiu um bezerro de ouro, atualmente foi logo um touro indomável dourado.

Os poderes deste mundo estão amarrados e comprometidos com a morte. O lucro de poucos é a fome de muitos. Enquanto for assim, a igreja tem a missão profética de profetizar: Jesus venceu a morte! Jesus é o rei dos reis! Jesus é vida! Ele veio, conosco aqui está, ele voltará!

O sacrifício de Jesus, quando visto como mera salvação da alma, é reduzido a uma experiência transcendental. No entanto, quando compreendido na plenitude do ser humano, torna-se a razão do louvor e da adoração da Igreja.

Louvor e adoração não apenas no culto, principalmente no dia a dia, cuidando do necessitado, pregando aos mortos, anunciando haver vida naquele que se entregou por nós. Ao se entregar ele nos inclui no Reino.

Incluiu-nos.

Ele fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai. Para melhor compreender o que é o reino de sacerdotes, recorro aqui a Adolf Pohl, nascido em 1927, foi pastor na antiga Alemanha Oriental, diz Pohl:

Somente neste ponto é que o amor chega ao alvo, somente aqui a redenção alcança seu sentido. A igreja não foi amada e libertada para nada. A obra da redenção abrange mais que isso: culpa nossa — clemência dele! Ela continua: aptos para o serviço! O amor recebido e aclamado não pode ser privatizado. Está em jogo o serviço a Deus. A expressão precisa mais uma vez ser contraposta ao Egito, à dominação do pecado, ao qual se prestava serviço de escravo no passado. Agora o povo resgatado está livre para o seu novo e, apesar disso, legítimo proprietário, para Deus. Servir-lhe não é trabalho escravo, pois, afinal, ele é “seu Pai”, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, cujo sangue é enaltecido. Não pode ser diferente: esta redenção cria um povo sacerdotal.[1]

Nós somos este povo sacerdotal. O que isto significa? Vamos à origem do sacerdócio para compreender. Os sacerdotes foram instituídos para servir o povo no culto a Deus, orientando, corrigindo e apontando direções. Agora, visto que o véu foi rasgado, que Jesus, o sacrifício definitivo, venceu a morte, não há mais a necessidade de um sacerdote, pois temos em Jesus o sumo sacerdote, aquele que nos orienta, corrige e aponta direções. Ele, Senhor de tudo o que há, veio para nos servir, se entregou por amor de nós.

A dimensão da obra de Jesus é tamanha que, ao nos resgatar da morte para a vida, faz de nós sacerdotes no serviço do Reino. Você, eu, todos estamos incluídos. A graça e a paz de Jesus é sobre todos, sem ninguém ficar de fora.

Ele nos resgatou, comprou a preço de sangue, nos libertou para nos incluir no seu Reino. Glórias a Deus!

Na contramão da obra salvadora de Jesus, muitos que carregam seu nome — cristãos — estão excluindo pessoas, fazendo separação entre humanos, categorizando membros de igreja como se o Reino de Deus fosse uma grande empresa que faz diferenciação de funcionários, com hierarquias e competências.

Precisamos parar de criar castas de cristãos e começar a acolher, incluir e celebrar a vida eterna com todos. Quem manda é Jesus. O próprio apóstolo João deixou isso registrado no final de seu evangelho, quando registrou o passeio de Jesus com Pedro: Se eu quiser que ele permaneça vivo até eu voltar, o que lhe importa? Quanto a você, siga-me (João 21.22)

Pare de discriminar as pessoas, siga a Jesus. Pare de semear ódio em forma de discurso religioso, siga a Jesus. Ele acolhe, inclui e celebra com todos e todas, sem ninguém ficar de fora.

Conclusão

Concluindo. “Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus. “Eu sou aquele que é, que era e que ainda virá, o Todo-poderoso.”

O alfa e o ômega, o começo e o fim. Tudo o que diz respeito a compreensão humana de existência e realidade começa e termina em Deus. Ele é o que detém o poder.

Quando separamos, como igreja, um domingo para recordar que Cristo é o rei do universo, o fazemos para nos lembrar que não importa onde você esteja, quando você estiver, com quem e de que jeito, não há lugar no cosmo em que Jesus não seja soberano, pois assim ele foi instituído por Deus, o Pai, para reinar eternamente sobre a criação.

Quando encaramos a jornada de um novo ano, um novo momento, um novo tempo, não o fazemos pensando no ciclo de doze meses, mas na dimensão da eternidade que nos está reservada. Você já está pronto para esta jornada, pois o eterno, aquele que é, que era e que ainda virá, o Todo-poderoso, foi ele mesmo que nos chamou, em Cristo Jesus, para a eternidade.

Portanto, pare de se prender às circunstâncias e problemas do passado. Olhe para a eternidade, compreenda que é para ela que fomos feitos e para lá que caminhamos.

Comecei falando do Reverendo Zwinglio Mota Dias, encerro citando-o: A vivência da fé, especialmente da fé cristã, perdeu sua dimensão essencial que é viver com e para os demais[2]. Não existe comunidade cristã do eu sozinho. Você e Deus não existe, o que existe somos nós e Deus. Não estamos sós. Caminhamos com Jesus, que é quem realmente manda! Há muito o que fazer, injustiças a denunciar e combater, mas não faremos isto sozinhos, faremos isto movidos no amor e guiados pelo Espírito Santo. Juntos, você e eu, percorrendo a jornada da vida.

[1] Pohl, A. (2001). Comentário Esperança, Apocalipse de João (p. 79). Curitiba: Editora Evangélica Esperança.

[2] Entrevista com o professor e pastor presbiteriano Zwinglio Dias, publicada pelo Conselho Nacional de Igrejas — CONIC, publicado em https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2015/08/31/entrevista-com-o-professor-e-pastor-presbiteriano-zwinglio-dias-publicada-pelo-conselho-nacional-de-igrejas-conic/ acessado em 19 de novembro de 2021

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Aprendendo com Jesus a leveza de viver. Pastor apaixonado pela Bíblia e as áreas de conhecimento que a cercam | giovannialecrim.com.br

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Giovanni Alecrim

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