Preparando a casa

Prontos para a jornada: um novo tempo exige de nós uma nova postura

Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

Sempre que chega novembro as pessoas fazem os mesmos comentários, já reparou? Nossa, como o ano passou rápido! — Vai fazer o que no Natal? — Mês de black Friday, vou aproveitar a primeira do 13º! Ano que vem vou mudar de vida!

É natural do ser humano, por conta de sua temporalidade, reger a vida por ciclos. Nossos antepassados fizeram isso, nós fazemos e dificilmente nossos descendentes quebrarão com essa rotina.

Vivemos e nos movemos por ciclos e, talvez por isso, encaremos sempre um novo ciclo, novo ano, como uma jornada, com etapas a serem cumpridas, compromissos a serem honrados.

A série de mensagens deste mês se propõe a falar de uma jornada que se apresenta diante de nós. Há uma enorme expectativa com 2022, pois será o ano do retorno, da retomada, da reconstrução.

Prefiro olhar como um novo ciclo, um momento em que teremos uma jornada de adaptações e redescobertas, por isso, convido você a pensa comigo neste novo momento, olhando para dentro de casa, enfrentando as dificuldades e reconhecendo quem é que manda em todos os ciclos temporais que vivemos. Prontos para a jornada, nossa série de mensagens de novembro de 2021 quer conversar sobre estas três etapas fundamentais para que 2022 seja diferente.

E, como toda jornada, ela começa em casa. Casa, não apenas o lar, ou a estrutura casa, mas também a igreja, as nossas relações e a nossa vida, a maneira como alicerçamos nossa fé e entendimento. Vamos ler o Salmo 127 para juntos compreendermos o que Deus quer de nós neste novo ciclo.

1Se o Senhor não constrói a casa,
o trabalho dos construtores é vão.
Se o Senhor não protege a cidade,
de nada adianta guardá-la com sentinelas.
2É inútil trabalhar tanto,
desde a madrugada até tarde da noite,
e se preocupar em conseguir o alimento,
pois Deus cuida de seus amados enquanto dormem.

3Os filhos são um presente do Senhor,
uma recompensa que ele dá.
4Os filhos que o homem tem em sua juventude
são como flechas na mão do guerreiro.
5Feliz é o que tem uma aljava cheia delas;
não será envergonhado
quando enfrentar seus inimigos às portas da cidade.

A capital da Escócia, Edimburgo, quando desenvolveu seu brasão de armas, grafou em letras pretas, grandes, NISI DOMINUS FRUSTRA, expressão latina presente na abertura do Salmo 127. No espírito dos cidadãos de Edimburgo está o espírito do salmo: sem o Senhor é tudo vão.

O Salmo 127 era cantado pelo povo na jornada até Jerusalém. Ele se enquadra na categoria dos salmos sapienciais, que abordam assuntos como felicidade ou desgraça do justo ou ímpio, além de temas que levam a reflexão, como a retribuição de Javé ainda aqui, em vida, ou no além.

Este salmo seria de autoria de Salomão, ou a menção ao rei se dá por conta da temática ser uma ênfase para que o povo não cometa os erros cometidos pelo rei? O salmo enfatiza a sabedoria, a unidade e a descendência. Salomão não foi sábio em sua administração, o reino terminou dividido ao fim de sua vida e sua descendência também guerreou entre si.

Seja o que for, temos uma relação interessante no verso 2 com o rei: Deus cuida de seus amados enquanto dormem nos parece uma referência ao sonho de Salomão em Gibeom. Não sei se você se lembra, mas foi neste sonho que Salomão pede a Javé sabedoria para governar.

O Salmo 127 nos apresenta uma oração em termos que oscilam do negativo ao positivo. Vemos também a relação entre a cidade e o campo. O trabalhador vai ao campo, mas é na cidade que ele repousa. Usando elementos de defesa, o salmista mostra a relação da casa, que fica na cidade defendida por uma sentinela, e a família, que também é casa, defendida pelas flechas, os filhos.

Tomando este contexto, podemos concluir que o Salmo 127 é uma advertência. Sim, isso mesmo. Uma advertência aos que pensam que conseguem resolver tudo por seus próprios esforços. A Bíblia de Jerusalém é quem melhor sintetiza o espírito do Salmo 127: O trabalho do homem está voltado ao fracasso se Deus não o fecunda; pão cotidiano e descendência são dons de Deus.

É partindo da leitura do Salmo 127 que quero dizer-te que nossa casa deve estar preparada e devemos seguir cuidando do que é eterno.

Cuidando do que é eterno.

Não se ocupe do que é vão. Certo, você me dirá, mas, o que é vão? Vão é tudo o que se faz sem contar com Deus. Absolutamente tudo o que você fizer deve ser feito sob orientação de Deus.

Aqui preciso alertar você: não orientação do pastor, do crente famoso que você acompanha na ‘internet’, líderes, enfim, você entendeu. Orientação de Deus.

A imagem que o salmista usa nos remete a um canteiro de obras: você pode construir uma casa, mas se quem for morar nela não compreendeu ainda que Deus é quem permite sua construção e conclusão, é em vão.

De igual modo, você pode proteger a sua casa, patrimônio, cidade, com quantos seguranças quiser. Seguradora, vigia, câmeras, microfones, alta tecnologia. Se o Senhor não proteger, de nada adiantará.

Vemos esta realidade no reinado de Salomão. Foi a era de ouro de Israel. Maior território, exército fortalecido, instituições firmadas. Templo e palácio em sintonia. No entanto, com todo esse cenário próspero e positivo, o que se lê sobre Salomão nos textos bíblicos é que seu reinado não foi fiel a Deus. A infidelidade do povo, marca que os cronistas e profetas destacaram como causa do exílio, era semeada a partir do palácio.

O que aprendemos com tudo isso? Peço licença para uma linguagem direta: se Javé quer, já é. Isso significa que Deus é um autocrata, que manda e desmanda? Que não temos liberdade ou livre arbítrio? Recorro a um texto que publiquei sobre o tema:

Tudo ocorre conforme sua ciência a respeito de tudo. Isso tira de mim a liberdade para realizar minhas escolhas? Não, pelo contrário. Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Temos autonomia e consciência. Tal qual Deus tem. O que muda em nós, em relação a Deus, é o pecado. O conceito teológico de pecado nos coloca diante de nossa limitação. Nossas escolhas extrapolaram nossa condição e sofremos as consequências delas. Estas escolhas nos tornam limitados[1].

Como podemos perceber, nossa liberdade está atrelada a nossas escolhas. Quais são as escolhas que você tem feito no seu dia a dia? Você toma decisões da hora que acorda até a hora que dorme. O que elas dizem a respeito de você e da sua relação com Deus?

Coloco mais ou coloco menos açúcar no café? Frito o pão na frigideira ou coloco no forno? Desço de elevador ou de escada? Ligo para meu amigo agora ou só envio uma mensagem?

Ousaria dizer que precisamos olhar para as questões corriqueiras que nos exigem decisões com a mesma intensidade que olhamos para os dilemas existenciais. Isso nos dará uma dimensão de que a eternidade não está apenas nos grandes dilemas, mas na rotina que temos.

Se tudo o que faço não busco a Deus, é tudo vão, temporal, se acaba. No entanto, Javé nos convida, por meio do salmo, a nos preocuparmos com o que é eterno. O que é eterno? Menos ou mais açúcar é eterno?

A resposta para estas questões está em Jesus. Ele nos mostrou o que é eterno: buscar o Reino de Deus e a sua justiça, as demais coisas, deixa com o Pai. Isso passa pelos dois conceitos muito caros para o ser humano: segurança e sustento

Segurança e sustento.

No relato do Gênesis já percebemos o que havia, por parte de Deus, o cuidado com segurança e sustento. Antes da queda, o jardim era cultivado visando garantir o sustento do ser humano e de todo o ecossistema. A segurança era garantida pelo próprio Deus, que com barreiras naturais, quatro rios, cercava e garantia equilíbrio.

Após a queda, duas ações vão nessa direção: roupas para garantir a segurança do corpo, trabalho para garantir o sustento.

Se você não tem dimensão disto, saiba que a principal questão de uma casa passa exatamente por esses dois pilares: segurança e sustento.

Em nome da segurança de nossas casas, procuramos o melhor lugar possível para morar, mais cercado e protegido. Em nome do sustento, vivemos obcecados em nossos trabalhos, temendo uma demissão, nos sujeitando a tudo para por comida na mesa. Faz-me lembrar Gessinger e Licks

Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
[2]

O povo em peregrinação para Jerusalém, diante da insegurança da estrada, da incerteza do sustento, canta:

É inútil trabalhar tanto,
desde a madrugada até tarde da noite,
e se preocupar em conseguir o alimento,
pois Deus cuida de seus amados enquanto dormem.

Que loucura! Eles estão cruzando desertos, atravessando rios, subindo os montes e dizendo ser inútil trabalhar para garantir o sustento e a segurança que todos nós precisamos!

Isso mesmo, era loucura há mais de 2500 anos e continua sendo hoje. É loucura, pois nosso sustento não vem do salário que recebemos no fim do mês, nossa segurança não vem do vidro fechado do carro, do ônibus ou da casa. Tudo isso é vão. Nosso sustento vem de Javé. Nossa segurança vem de Javé!

E é neste contexto que o salmista vai exaltar a figura dos filhos como recompensa que Javé dá ao povo. A tradução para o português, não sei bem por que, não contempla a intensidade da transição do primeiro para o segundo bloco deste salmo. Ele se inicia, no hebraico, com o termo הִנֵּה — hinneh, que somente a tradução Revista e Corrigida de Almeida e a Tradução Brasileira preservam com a expressão “eis que”. Uma das traduções possíveis para הִנֵּה é “tome nota!”. E eu gosto desse destaque e já vou te explicar o motivo.

O salmista diz e o povo canta: Tome nota! Os filhos são presente de Javé, uma recompensa que ele nos dá. Sabe o sustento e a segurança que tanto você luta para ter e dar aos seus? Então, os filhos são presentes de Deus, confie-os ao Senhor.

Precisamos ter em mente, aqui, a sociedade daquele tempo, rural, que quanto mais filhos, mais trabalhadores você tinha para ajudar no sustento e garantir prosperidade aos negócios, mas também guerrear e proteger sua plantação.

Nos nossos dias, numa sociedade de consumo, isso mudou. Os dons e talentos dos filhos são postos diante dos pais para que os honrem com educação e cuidados, mas eles traçam os próprios caminhos. Ter filhos é uma bênção e, educando-os nos caminhos de Javé, serão livres e seguros para honrar suas famílias.

Mas, pastor, e quem não tem filhos? Creio não ser apenas na minha família esta realidade, aqui mesmo, na Igreja, na família de vocês, existe essa realidade. A pessoa que não tem filhos e, conforme o tempo avança, começa a carecer de cuidados.

Quero dar um testemunho familiar nesse sentido. Minha querida tia Laninha, que nos assiste pelo YouTube, é a tia mais disputada pelos sobrinhos nesse quesito. Um tempo atrás quase causei um acidente diplomático com meus primos ao dizer que tia Laninha, quando estiver bem velinha, vem morar comigo. Sei que há aqui famílias que são assim.

Tia Laninha é legal, um amor, a “tia que amamos”. Mas eu tenho uma certeza: ela é tão amada e disputada assim pelos sobrinhos, pois o testemunho dela diante de nós e da segurança e sustento que vem de Deus, em toda e qualquer situação.

Conclusão

O que concluímos de tudo o que dissemos até aqui? Esteja pronto para o novo que se abre, cuidando do que é eterno e ciente de que sua segurança e sustento dependem de Deus.

Você e eu temos uma longa jornada pela frente. Um novo momento vem chegando com recomeços e retomadas. Não firme sua vida no que é temporal, construa e erga sua vida como um culto a Deus, eterno, palpável e acessível a todos os que vivem na insegurança e na falta de recursos.

Saiba que nessa jornada você não está sozinho, estamos juntos na caminhada do Reino de Deus, para sermos agentes de segurança e sustento na vida uns dos outros.

O desafio que temos é de reconstruir nossas relações sociais firmadas em patamares diferentes. Quais? O Reino de Deus nos mostra o caminho e eu quero convidar você a confiar mais, amar mais, orar mais, servir mais. Prontos para a jornada nós já estamos, pois, o Espírito Santo está conosco! Isto não significa que não teremos dificuldades, mas sobre isto, falaremos na próxima mensagem.

[1] ALECRIM, Giovanni. Liberdade até onde? Em https://escritor.giovannialecrim.com.br/liberdade-at%C3%A9-onde-b4f915e67b62 Acessado em 5/11/21, 16h

[2] Muros & grades, Compositores: Humberto Gessinger e Augustinho Moacir Licks, álbum Várias Variáveis, ©Warner Chappell Music, Inc

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Aprendendo com Jesus a leveza de viver. Pastor apaixonado pela Bíblia e as áreas de conhecimento que a cercam | giovannialecrim.com.br

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Giovanni Alecrim

Giovanni Alecrim

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