O rio

Giovanni Alecrim
6 min readJan 6, 2024

O batismo de Jesus e como devemos viver o evangelho

⁴Esse mensageiro era João Batista. Ele apareceu no deserto, pregando o batismo como sinal de arrependimento para o perdão dos pecados. ⁵Gente de toda a Judeia, incluindo os moradores de Jerusalém, saía para ver e ouvir João. Quando confessavam seus pecados, ele os batizava no rio Jordão. ⁶João vestia roupas tecidas com pelos de camelo, usava um cinto de couro e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

⁷João anunciava: “Depois de mim virá alguém mais poderoso que eu, alguém tão superior que não sou digno de me abaixar e desamarrar as correias de suas sandálias. ⁸Eu os batizo com água, mas ele os batizará com o Espírito Santo!”.

⁹Certo dia, Jesus veio de Nazaré da Galileia, e João o batizou no rio Jordão. ¹⁰Enquanto saía da água, viu o céu se abrir e o Espírito Santo descer sobre ele como uma pomba. ¹¹E uma voz do céu disse: “Você é meu Filho amado, que me dá grande alegria”. (Marcos 1.4–11)

O agir de Deus não acontece desconectado do tempo e do espaço. Quando propomos iniciar o ano olhando para as paisagens da vida, estamos, intencionalmente, convidando as pessoas de nossa igreja a olhar ao seu redor e reconhecer no espaço que está o agir de Deus.

Olhar, sentir e viver o agir de Deus não é uma opção ou algo que seguimos um método e encontramos. O monge beneditino alemão Anselm Grün é um dos autores que tenho aprendido a ler e meditar.

Suas reflexões acerca da espiritualidade nos desafiam a depender de Deus. Ele afirma, em seu livro “Sabedoria Bíblica” que

“Não podemos produzir experiências que elevam coração. Elas nos são dadas”.

Assim, na mensagem de hoje, vamos visitar um ambiente que nos convida a olhar como Deus deu aos seus filhos experiências em que elevam o coração.

Numa primeira leitura, dois cenários saltam aos nossos olhos. O primeiro, o deserto, o segundo, aonde vamos nos focar, o Rio Jordão. Mas, antes de chegar ao rio, precisamos entender que o deserto, no contexto bíblico, não é bem a imagem que temos, hoje, de um deserto.

Ao ouvirmos a expressão “deserto”, imediatamente imaginamos areia e aridez, até onde nossos olhos alcançam. Em Lucas 15,4, porém, uma pastagem também é chamada de “deserto”. Aqui também o verso 6 pressupõe plantas.

Em termos bíblicos, o deserto é uma terra em que não se planta, ao contrário da terra cultivada, onde os nômades erguem acampamentos e criam seus rebanhos.

A parte sul do vale do Jordão e as regiões próximas fazem parte deste cinturão de estepes que representa a transição para o deserto sem água, chamado de “deserto” pelos escritores judeus Josefo. Ele é constituído por um terreno calcário rochoso bastante acidentado, com uma camada fina de húmus e vegetação dispersa.

O deserto, diferente da terra cultivada, é pouco habitado, razão pela qual é considerado um lugar de encontro intenso com Satanás, mas também com Deus. É no deserto que o povo é formado. É no deserto que Jesus é tentado.

Este deserto, especificamente, fica próximo ao Rio Jordão. Era lá que João Batista exercia seu ministério. É de lá que ele convoca o povo ao arrependimento.

Há uma grande diferença entre o batismo de João e o batismo que praticamos. João convidava ao arrependimento. Aqui, precisamos ter em mente toda a chamada profética ao arrependimento durante o Antigo Testamento.

É nesta linha que João está convocando o povo a abandonar seu distanciamento da vontade de Deus e se preparar para aquele que viria.

O cumprimento da profecia da voz que se levantava no deserto estava diante dos olhos daquele povo. Aqui, podemos apontar dois desertos: o deserto onde João estava, e o deserto de profecias que Jerusalém vivia.

O deserto é este lugar de vivência do espiritual de maneira intensa. E por isso João deixa clara sua missão: eu os batizo com água, mas ele os batizará com o Espírito Santo!

Segundo Adolph Pohl, pastor luterano,

“não nos deve surpreender que a promessa do Espírito é feita aqui, pois ela faz parte natural do tema do deserto. É da seca e da sede que os profetas recebem o Espírito do alto”.

João sabia que seu trabalho era apenas uma linha no todo da história que estava se escrevendo diante dele. Por isso prega, do deserto, o arrependimento.

A chamada ao arrependimento era acompanhada do batismo, um rito que não era comum aos judeus, mas que simbolizava a mudança de vida, a escolha por uma nova mentalidade.

Por isso, João, segundo relatos paralelos dos evangelhos, estranha a atitude de Jesus. Ele é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo.

Jesus está, então, no nosso cenário, à margem do Rio Jordão. O início da caminhada de seu ministério, ele vai ao seu primeiro batismo, pois sabia que o segundo seria o definitivo. O segundo? A cruz!

Jesus é batizado e, naquele momento, os céus se abrem, o Espírito desce como em forma de pomba e a voz de Deus é ouvida.

É preciso entender como os judeus enxergavam esta descida do Espírito Santo. No judaísmo, predominava a crença de que, em Israel, apenas alguns escolhidos tinham o Espírito Santo, e que este se apagara completamente após Malaquias.

Um tempo sem o Espírito, contudo, é um tempo de julgamento. Este tempo terminava agora. Ao ressoar a voz do céu aberto, irrompe a salvação.

Uma pomba dá o sinal de que há vida, como ao término do julgamento do dilúvio na época de Noé. É a pomba do Espírito Santo, como podemos entender sem uma explicação exagerada a respeito.

Jesus, o Filho Amado de Deus que dá grande alegria ao Pai, inicia sua jornada entre nós. É o marco do início do ministério de Jesus e, com ele, o início de uma nova realidade.

Após termos mergulhado neste panorama às margens do Rio Jordão, quero deixar para nossa meditação algumas lições preciosas a respeito.

Nem todo deserto é solidão, mas, se há um rio, todo deserto é transformação.

O deserto de João Batista não é solitário. Por conta das suas atitudes e mensagem, as pessoas viajavam para o deserto para ouvir João pregar e serem batizadas.

Ali, no deserto às margens do Rio Jordão, João chamava o povo para uma transformação. Era preciso sair do deserto, ir até as margens do rio, e no ato simbólico do batismo recomeçar.

Todo deserto é um convite à perseverança, todo rio é um convite para entrar numa nova realidade de vida! E esta nova vida tem uma missão. Daí vem nossa segunda lição.

Toda missão tem um propósito específico, a nossa é colocar Jesus em destaque: ele é digno!

Precisamos ser um pouco mais João Batista. Não estou me referindo a se vestir de roupas tecidas com pelos de camelo e comer gafanhoto com mel. Estou me referindo quanto à função de João Batista.

João Batista precedeu Jesus. Veio para cumprir a sua missão de preparar o caminho para a vinda do messias. De igual modo, precisamos preparar o caminho para a volta de Cristo.

Como? Pregando o evangelho da salvação, anunciar que há vida em Jesus e, feito isso, deixar que o Espírito Santo faça sua obra, estando cada um de nós prontos a caminhar ao lado das pessoas, ensinando-as a guardar tudo o que aprendemos de Jesus.

Chegando a Jesus, sabemos que a vida muda completamente, e esta é nossa terceira lição.

Com Jesus, após o rio, pode até haver um deserto, mas, depois dele, tem festa!

Sim, a vida com Jesus será de desertos, mas temos uma certeza. Após receber o Espírito Santo, Jesus é conduzido ao deserto.

Ao voltar de lá, Jesus inicia seu ministério e os evangelhos registram seu primeiro milagre numa festa de casamento.

Saiu do deserto, para a festa. Saiu da água, para o vinho. Saiu da solidão para alegria da festa.

Não sei o deserto que você enfrenta, se quiser, podemos marcar um café e te conto o que já passei e estou passando. É difícil, em meio ao deserto, ter consciência do que há diante de nós.

Por isso, encerro esta mensagem te convidando a mergulhar num rio de águas vivas, que transformam nossa jornada e nos colocam diante da realidade da vida eterna.

Não há deserto, nem rio tempestuoso, não há vale verdejante, nem rio calmo que possam nos afastar de Jesus.

Confiar em Jesus é um exercício constante de olhar nossa realidade, os cenários que vivemos, e saber que, para além do caos ao nosso redor, uma festa está acontecendo e somos parte dela, não por méritos nossos, mas por graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Sermão pregado no domingo, 7 de janeiro de 2024, na Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP

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