O mensageiro

Emanuel, Deus conosco: mensagem de salvação, cuidado e direção.

1“Vejam! Envio meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. Então, de repente, o Senhor a quem vocês buscam virá a seu templo. O mensageiro da aliança, por quem vocês anseiam, certamente virá”, diz o SENHOR dos Exércitos.
2“Mas quem poderá suportar quando ele vier? Quem permanecerá em pé em sua presença quando ele aparecer? Pois ele será como fogo ardente que refina o metal, como sabão forte que branqueia as roupas. 3Ele se sentará como refinador de prata e queimará toda impureza. Purificará os levitas e os refinará como ouro e prata, para que voltem a oferecer sacrifícios aceitáveis ao SENHOR. 4Então o SENHOR se agradará novamente das ofertas do povo de Judá e do povo de Jerusalém, como no passado.
5“Naquele dia, eu julgarei vocês. Não demorarei para testemunhar contra todos os feiticeiros, adúlteros e mentirosos. Falarei contra aqueles que roubam o salário de seus empregados, que oprimem as viúvas e os órfãos, ou que privam os estrangeiros de seus direitos, pois essas pessoas não me temem”, diz o SENHOR dos Exércitos.
Malaquias 3.1–4

A realidade da ação profética, em Israel e Judá, não era uma realidade de glórias e vitórias, pelo contrário, era mais de confrontação e proclamação. Os profetas eram levantados por Deus para apontar direções, confrontar e rememorar ao povo quem é o Senhor de Israel e Judá. A direção apontada, geralmente, era contrária a que o povo estava caminhando. A confrontação se dava, principalmente, no que diz respeito às questões sociais e morais. A rememoração era, sempre, a respeito do que Deus fez por seu povo no passado. Ninguém gosta que lhe digam que está errado, que o que faz prejudica a si mesmo e os outros, que é um ingrato com sua história. Só por aí, é possível compreender como os profetas não eram nada queridos. E é de um livro de um profeta que vamos falar hoje.

O livro do profeta Malaquias é uma grande incógnita no que diz respeito à sua autoria. O termo hebraico מַלְאָכִי — mal’aky significa “meu mensageiro”. Não é nada extraordinário não sabermos da autoria do texto. O Targum (comentários, traduções e paráfrases da Bíblia Hebraica em Aramaico) aponta para Esdras como autor. Mais tarde, São Jeronimo também vai repetir tal apontamento. Séculos mais tarde, o teólogo russo Alexander von Bulmerincq vai apontar que o mensageiro é Esdras, mas a redação foi de um de seus ajudantes. Podemos, então, propor que a autoria seja mesmo de Esdras? Não dá, pois temos alguns conflitos no estilo redacional e em questões, como na atitude diante dos levitas.

O estilo redacional e a forma que a profecia é apresentada colocam dúvidas quanto a um livro de fato de Malaquias, isto porque ele foi considerado como parte integrante do livro de Zacarias, como um terceiro escrito profético acrescentado e que, posteriormente, por conta da redação final dos livros proféticos, foi separado novamente como unidade à parte. Esta separação se deu por identificarmos, na leitura de Malaquias um único estilo autoral, diferentemente de Zacarias, que apresenta estilos variados de escrita.

Se pouco sabemos do autor, podemos dizer que sabemos o suficiente do tempo em que foi escrito o texto. Malaquias se encontra no século V a.C., portanto, pós-exílio. O cenário que envolve o texto é desolador. A indiferença do povo chegou ao extremo. As antigas profecias não se cumpriam, a apatia religiosa era grande e a confiança em Deus cada vez menor, a ponto de duvidarem do amor, justiça e até mesmo de seu interesse por Judá. Tal situação leva o culto a Javé e a ética do povo para níveis baixíssimos. Todo este cenário nos coloca no século V a.C., antes da atuação e reformas implementadas por Esdras e Neemias. Há alguns dados no texto que confirmam a datação do século V a.C. O templo havia sido reconstruído, o culto acontecia, mesmo que precariamente, havia estrutura do templo organizada com sacerdotes e levitas. A datação em V a.C. nos ajuda a compreender também a influência de Deuteronômio na profecia de Malaquias. Outro aspecto importante é a menção ao “governador” em 1.8, fazendo referência aos persas, mostrando já a diminuição do assédio de Edom a Judá, o que leva à necessidade de se regulamentar questões de casamento e a oferta do dízimo.

O nosso texto de hoje está inserido neste contexto todo que relatei até aqui. Estamos no segundo domingo do advento, dia em que os textos apontam para João Batista, sem, contudo, deixar de apontar para Jesus. É nessa perspectiva que quero falar, considerando Malaquias 3.1–5, do mensageiro, os feitos e a justiça da mensagem.

O mensageiro

Numa primeira leitura, o verso 1 pode parecer estranho. Há, se você se atentar, dois mensageiros nesta passagem. O primeiro, que prepara o caminho, e o segundo, o mensageiro da aliança. Seria dois? Seria um? Não são os mesmos?

Ouso aqui concordar com Alonso Schöckel e Sicre Diaz, que ao comentar este texto dividem em dois momentos: a vinda do mensageiro preparando o caminho e a vinda do mensageiro da aliança.

O primeiro mensageiro vem, portanto, preparando o caminho. Ele exerce a função do arauto, aquele que anuncia a vinda de alguém importante. Nos nossos dias, seria a assessoria de imprensa de alguém importante dizendo que ele está vindo.

O primeiro mensageiro vem preparando o caminho. O que isso significa? Que ele vem anunciando a vinda de alguém mais importante e já praticando os ensinos deste alguém.

O que o primeiro mensageiro faz é dizer ao povo: preste atenção em mim, porque ali vem alguém que não sou digno da presença, mas que me enviou a anunciar sua vinda.

E o segundo mensageiro? Este é o mensageiro da aliança, o portador da real vontade do emissor. Decodificando: para nós, cristãos, é Jesus, o Filho de Deus, que estabelece a aliança eterna.

Passados mais de dois mil e quinhentos anos da notícia da vinda dos mensageiros, o que isso tem a nos dizer hoje? Primeiro, que nós, a Igreja, somos os mensageiros que preparam o caminho daquele que voltará, Jesus.

Para nós, cristãos, a volta de Jesus é uma promessa que vivemos diariamente. Não é uma esperança vazia, mas uma utopia que transformamos em ação. O Reino de Deus é, e será, por isso o aguardamos com os braços prontos para o servir.

A notícia da vinda dos mensageiros, em segundo lugar, deve nos manter alerta na nossa missão de servir, mas não servimos a qualquer um, servimos ao mensageiro da aliança, ao único que é digno de toda honra, ao senhor Jesus.

Segundo o texto de Malaquias, a vinda do mensageiro da aliança produziria alguns efeitos.

Os feitos

Os feitos do mensageiro da aliança são descritos nos versos 2 e 3 e quero falar da relação deles conosco, dois mil e quinhentos anos depois.

Quem poderá suportar quando ele vier? Quem permanecerá em pé em sua presença quando ele aparecer? A mensagem de Malaquias diz que não será possível resistir quando ele vier. A presença do mensageiro da aliança coloca todos no mesmo nível, rebaixa os orgulhosos e poderosos e nivela a humanidade. Ninguém fica de pé, todos se prostram.

Vejo muitos cristãos se vangloriando da glória e poder de Deus, mas poucos se prostrando. Excluem pessoas, esbravejam regras e normas, mas não se ajoelham com temor diante do Filho de Deus. Jesus, nosso mestre e amigo, não nos chamou para nos vangloriarmos, mas para servirmos. O cristão é aquele que serve, é escravo de Deus a serviço do seu semelhante, sem olhar a quem.

Pois ele será como fogo ardente que refina o metal, como sabão forte que branqueia as roupas. Ele se sentará como refinador de prata e queimará toda impureza. A impureza do pecado do povo de Israel o levou para o exílio. Tal impureza será limpa, retirada do meio do povo. Não sairá fácil, precisa refinar no fogo, esfregar com sabão forte.

Um dos grandes equívocos que você e eu cometemos é achar que quem purifica é a Igreja. Nem você, nem eu, nem ninguém aqui purifica nada. Quem purifica é o mensageiro da aliança, Jesus, ele é quem nos lava. Precisamos parar de exigir pureza dos outros e passarmos a clamar pelo fogo purificador do Espírito Santo sobre as nossas vidas. E isto começa com a Igreja.

Purificará os levitas e os refinará como ouro e prata, para que voltem a oferecer sacrifícios aceitáveis ao SENHOR. A purificação dos Levitas era urgente, pois eles eram responsáveis pelo culto no templo, uma tribo dedicada ao serviço. Malaquias evoca os levitas aqui para dizer ao povo que começará pelos que servem no templo a purificação.

De igual modo é urgente que você e eu nos ofereçamos a Deus para sermos purificados. Não estou falando de nos submetermos a uma lista de regras morais, mas de sermos transformados pelo fogo do Espírito.

Precisamos parar de achar que pureza cristã é regra moral e compreendermos que se trata de novo nascimento, nova criatura, nova identidade. Não é o nosso senso de justiça que prevalece, mas o de Cristo, é o que diz Malaquias sobre o mensageiro da aliança.

A justiça

A justiça de Deus se manifesta por meio do mensageiro da aliança. O verso cinco é uma resposta direta à pergunta feita no final do capítulo 2:

Vocês cansaram o SENHOR com suas palavras.
“De que maneira o cansamos?”, vocês perguntam.
Vocês o cansaram dizendo que todos que praticam o mal são bons aos olhos do SENHOR e que ele se agrada deles, e também ao perguntar: “Onde está o Deus da justiça?”. (Malaquias 2.17)

Onde está o Deus da justiça? Está ao lado daqueles que têm seus salários roubados, ao lado das viúvas, dos órfãos, dos estrangeiros. Mas não está ao lado dos que oprimem, roubam e desdenham de Deus, usando o nome de Javé em vão.

Do que adianta Israel ter um reino independente se os poderosos roubavam, oprimiam e desdenhavam de Deus? Esta é a palavra de Malaquias àqueles que questionavam o profeta sobre a justiça de Deus face à catástrofe do exílio.

Passados dois mil e quinhentos anos, a pergunta que nós, cristãos, devemos nos fazer é: estamos promovendo a justiça de Deus ou colaborando com a injustiça contra os mais necessitados?

Cada vez que você toma uma decisão, em relação à igreja, com base em discursos excludentes e politizados, quer de esquerda, que de direita, você está desdenhado de Deus. Os líderes alçados à condição de intocáveis, quer na política, quer na Igreja, são instrumentos de opressão e roubo. Essas pessoas não temem a Deus.

Feitiçaria, adultério e mentira não são meros erros reducionistas. Israel recorreu a práticas de feitiçaria até mesmo na sua relação com Javé. Adulterou, pois quebrou sua parte na aliança. Mentiu ao se arrepender publicamente e incorrer no mesmo erro seguidamente. Nada muito diferente do que fazemos hoje.

Transformamos a Igreja num lugar de feitiçaria: eu vou à igreja e Deus me abençoa. É mesmo? Ele é obrigado a te abençoar com o que você pensa ser bênção? Quebramos nossa relação com Deus ao nos preocuparmos mais com patrimônio, dinheiro e poder social do que em servir às pessoas. Mentimos para nós mesmos, erguendo a mão no louvor, mas cruzando os braços diante do necessitado.

Eu não sei você, mas eu me tremo todo lendo Malaquias 3.1–5, porque eu não quero, diante de Deus, ser aquele que oprime e rouba. Por isso eu oro para que ele me sonde, me corrija e me guie.

Conclusão

Concluindo. A mensagem de Malaquias é um desafio para nós atualmente. Enquanto a imensa maioria dos evangélicos da nação está preocupada com doutrinas esquerdistas, ditadura ‘gay’, lava-jato e tantas outras pautas irrelevantes para o Reino de Deus, aqui mesmo, ao nosso redor, pessoas estão com fome, passando frio à noite, sem ter o que comer nem onde dormir.

Está na hora, como igreja, de assumirmos nosso papel de mensageiros que preparam o caminho do Senhor: anunciando que ele voltará, servindo aos que são roubados e oprimidos pelos poderosos do nosso tempo, cuidando dos necessitados.

Nossa igreja vive um tempo de recomeço. Retomamos as atividades presenciais, os ministérios, as rotinas. Agora, precisamos aproveitar para retomarmos nossas ações efetivas. Você trouxe sua doação para cesta de Natal? Agora é a hora, traga diante do altar sua oferta. Se você está nos assistindo on-line, ou lendo essa mensagem, não hesite em ofertar em dinheiro, faça seu PIX (CNPJ 43.845.247/0001–11) e nos ajude nessa missão.

Ao doar para a cesta básica, não apenas de Natal, mas durante o ano todo, você está ajudando a minimizar a dor da fome. É uma das muitas maneiras que temos de servir ao nosso semelhante. Vamos ser criativos no serviço do Reino de Deus. Nós somos os mensageiros a anunciar que Jesus voltará. Maranata! Ora vem, Senhor Jesus.

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Aprendendo com Jesus a leveza de viver. Pastor apaixonado pela Bíblia e as áreas de conhecimento que a cercam | giovannialecrim.com.br

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