No fim das contas…

Uma série de mensagens poético-musical sobre os apocalipses da bíblia e da vida. Parte 4 de 4

Acabou. É o fim. No fim das contas, o que restará? Se restará… Desde que se tem registro de dados da humanidade, se encontra, advindo da tradição oral, registro sobre o fim do mundo. Visões apocalípticas que geram medo e temor a respeito das condutas e comportamentos no tempo em que se vive.

Na Bíblia, nosso texto sagrado, não é diferente. Os profetas, os apóstolos e o próprio Jesus falaram sobre o fim da história e como eles apontam para a justiça de Deus e a consumação do que você e eu chamamos de tempo e espaço.

Na cultura popular também encontramos estas expressões. E aqui, restrinjo apenas à cultura brasileira. De Carmem Miranda a Marisa Monte, da MPB ao Axé, passando pelas diversas tradições e culturas de um país continental, o que não faltam são previsões, histórias e utopias sobre o fim dos tempos.

No fim das contas… pretende olhar para estas visões registradas no texto da Bíblia Sagrada em quatro perspectivas: O dia do Senhor, As bestas de Daniel, A fala de Jesus sobre o fim dos tempos e o tradicional livro do Apocalipse. Vamos olhar para estes textos dialogando com a arte de nosso país e como suas diversas expressões musicais retrataram este fim dos tempos ou a existência de um mundo ideal. É assim que hoje encerraremos esta jornada olhando para…

A cidade santa em Apocalipse 21 e Vilarejo de Marisa Monte

Marisa Monte é um dos nomes da música brasileira que conseguiu escapar de rótulos que a imprensa e crítica musical tentaram lhe impor no início da carreira e trilhou o próprio caminho. Tendo despontado no final da década de 1980, tentaram colar nela rótulos como “sucessora de Elis Regina”, o que ela demonstrou, aos 19 anos, ter muita maturidade para rechaçar e construir sua carreira de maneira tão sólida que, em menos de uma década, conseguiu tirar das mãos da gravadora os direitos autorais de suas canções e montou sua própria produtora, sendo detentora dos direitos de sua própria obra.

No ano de 2006 Marisa Monte lançou dois álbuns distintos, porém, profundamente interligados: Infinito Particular e Universo ao Meu Redor são, respectivamente, o quinto e sexto álbum da cantora. Os álbuns expressam exatamente o que se propõe em seus títulos: um olhar poético e musical sobre o mundo de dentro da artista, e o mundo de fora dela, quase que um diário que revela o olhar de um mundo em constante transformação e sofrendo as dores que sofre.

É no álbum Infinito Particular que está a faixa Vilarejo, uma expressão utópica de uma pequena cidade onde a esperança termina, visto que se consolidou um mundo de paz e de vida plena. A segunda faixa do álbum é um convite para uma vida simples, possível e real. Vamos à letra:

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

As imagens desta canção não são nenhuma novidade no cancioneiro brasileiro. Uma cidade, pequena, singela, pura e ingênua, onde o campo e as casas se encontram em harmonia. Os mais antigos, como eu, vão se lembrar de outra canção, de Zé Rodrix gravada por Elis Regina, que fala dessa imagem: Eu quero uma casa no campo / Do tamanho ideal, pau a pique e sapê / Onde eu possa plantar meus amigos / Meus discos e livros e nada mais… A diferença está nas imagens, enquanto Casa no Campo é mais intimista e pessoal, Vilarejo não quer só os amigos, que toda gente que cabe lá. E por isso Vilarejo dialoga mais com o tema de hoje que Casa no Campo.

Esse desejo pelo singelo, puro e simples, associado ao campo, à cidade pequena, ao vilarejo, não é restrito apenas à poesia. As ciências sociais possuem diversos estudos que apontam para uma memória afetiva coletiva do brasileiro para com o campo. Isto se deve, muito, por conta do acelerado processo de urbanização que vivemos no século passado. Apenas para seu conhecimento, em 1940 éramos uma sociedade com 70% da população rural e apenas 30% urbana. Em 1970 já éramos 44% rural e 56% urbana e, segundo o censo 2010, somos uma sociedade 84% urbana e 16% rural. Não é incomum encontrarmos pessoas que nunca vivenciaram o campo, o dia a dia rural, desejarem uma casa no campo, uma vida mais simples, sem os ruídos constantes da cidade que não para nunca.

No fim das contas…o que Vilarejo nos revela é que há uma forma de se viver mais simples e sem as complexidades da vida, que muitos querem nos convencer ser algo natural do ser humano. É um desejo genuíno de esperança e paz.

O que Vilarejo tem a ver com Apocalipse e a cidade santa? Por que esperamos esta cidade descer do céu? E o que isso tudo tem a nos ensinar? Vamos ao texto de Apocalipse 21.1–7

1 Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra já não existiam, e o mar também não mais existia. 2 E vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, como uma noiva belamente vestida para seu marido.

3 Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: “Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo! Deus habitará com eles, e eles serão seu povo. O próprio Deus estará com eles. 4 Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre”.

5 E aquele que estava sentado no trono disse: “Vejam, faço novas todas as coisas!”. Em seguida, disse: “Escreva isto, pois o que lhe digo é digno de confiança e verdadeiro”. 6 E disse ainda: “Está terminado! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei de beber gratuitamente das fontes da água da vida. 7 O vitorioso herdará todas essas bênçãos, e eu serei seu Deus, e ele será meu filho.

Antes de falarmos exclusivamente de nosso texto, precisamos falar do livro do Apocalipse. Esta é uma das cartas mais mal compreendidas do Novo Testamento. Aliás, já deu para perceber, a esta altura, que tudo que envolve literatura apocalíptica existe mais mito e invencionices que interpretação de fato.

É de consenso que o Apocalipse é uma carta de autoria do Apóstolo João, pelo menos era essa a associação feita pelos primeiros cristãos ao ler a abertura da carta, onde, por duas vezes, João se autorreferencia, primeiro em 1.1 Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar a seus servos os acontecimentos que ocorrerão em breve. Ele enviou um anjo para apresentá-la a seu servo João; depois em 1.4 Eu, João, escrevo às sete igrejas na província da Ásia. Ao longo do tempo prevaleceu a tradição e autoria ficou com o apóstolo.

A carta é escrita às sete igrejas espalhadas pela Ásia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Após direcionar palavras diretamente a cada uma delas, João começa a falar dos acontecimentos que lhe foram revelados. O que o Apocalipse nos revela, de maneira teatral e figurada, é a imagem de um culto ao imperador sendo profundamente difundido e exigido ao longo do império, abalando a chamada paz romana, visto que os povos diversos se recusavam a fazê-lo, ou faziam um malabarismo teológico para justificá-lo. Havia, porém, um grupo periférico, perseguido pelo império e pelas religiões oficiais, que não se curvava de maneira alguma. Os pequenos cristos se recusavam a se dobrar diante do imperador, e pagavam com a própria vida.

É deste contexto de perseguição e morte, martírio e dor, que João escreve o Apocalipse. Toda e qualquer interpretação deste texto associando-o a eventos pontuais do tempo presente corre o risco de ser heresia. Por isso, não se deixe levar por falácias, mentiras e Fake News querendo associar eventos do livro do Apocalipse com os nossos dias. Lembre-se, o Apocalipse fala mais da esperança para um povo em perseguição, que dos últimos dias propriamente dito, e, quando aborda o fim da história, o faz na perspectiva da esperança, por isso o texto de hoje é tão fundamental para nossa fé.

O nosso texto, Apocalipse 21.1–7, numa primeira leitura, pode parecer desconectado do bloco de ensino dos capítulos 19 e 20. Mas não está. Após o juízo narrado no capítulo anterior, a concretização da vida plena se dá agora, no capítulo 21. As palavras de abertura, em 1.8, são retomadas aqui, em 21.7: Eu sou o Alfa e o Ômega. Uma vez consumado o julgamento da criação, a própria presença plena de Deus se faz saber diante de todos. A cidade santa, morada eterna da parte de Deus, desce para estar no meio do povo.

João retoma aqui uma imagem muito conhecida dos primeiros cristãos, principalmente dos de origem judaica: o tabernáculo, símbolo da presença de Deus no deserto da peregrinação do Egito à terra prometida. Não é um palácio imperial, castelo de reis, é um tabernáculo, de tecido, simples, feito para ser desmontado e carregado. Embora haja, nos versículos seguintes, menção ao muro da cidade e ao trono do cordeiro, este último não está no palácio, mas no tabernáculo.

É interessante atentarmos que João não descreve a volta ao paraíso de Gênesis. O Éden não é nossa morada eterna, mas sim uma cidade, santa, sem morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Permanecem, ainda, nesta cidade, elementos naturais como a árvore da vida e o rio de água viva que corre do trono.

A imagem descrita por João é o que deve preencher nossa mente e coração quando falamos de vida eterna. Mais que a beleza do lugar, sua grandiosidade e singularidade, duas características me chamam atenção nesta visão. A primeira, que “O próprio Deus estará com eles”. A presença de Deus será suficiente para a vida. Se você continuar a leitura do capítulo, verá que na nova Jerusalém não existirão algumas coisas que nós consideramos essenciais: 22 Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus, o Todo-poderoso, e o Cordeiro são seu templo. 23 A cidade não precisa de sol nem de lua, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é sua lâmpada. Apocalipse 21.22–23.

Não tem sol, não tem lua, nem templo para adoração. A presença de Deus é o suficiente. E nós podemos viver esta verdade hoje: a presença de Deus em nossas vidas, comunidade e família é o suficiente para nós. Quando nos reunimos para celebrar e cultuar, temos que ter em mente que a suficiência da graça de Deus nos basta. Todo o resto, até aquilo que consideramos insubstituível, é secundário.

A segunda característica que me chama atenção em nosso texto é a consequência da presença de Deus: Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre. Apocalipse 21.4. Para sempre. Não teremos mais dor. Para sempre! É quase que impossível concebermos uma vida assim, sem sofrimento. Viver é, para nós, sofrer. Sofremos quando nascemos, visto ser o parto um rompimento gigantesco do bebê com sua mãe. Nascer de novo, em Cristo Jesus, é outro sofrimento, visto que não é fácil enterrarmos o velho “eu” diariamente, é um processo doloroso, espinhos permanecem na carne, doendo, para nos lembrar que a graça de Deus nos basta.

Por isso as imagens invocadas por Marisa Monte fazem todo sentido para nós. Lá o tempo espera. Lá é primavera. Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Em todas as mesas, pão. Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção tem um verdadeiro amor para quando você for. É uma realidade idealizada, que contrasta com a realidade ao nosso redor. Inclusive, a cantora no clipe da música mostra cenas da realidade que vivemos enquanto canta sobre uma realidade desejada. Tal qual João contempla morte e perseguição ao seu redor, mas fala de vida e do fim do sofrimento. Estas imagens estão vivas em nós e devem ser cantadas e desejadas por cada cristão.

No fim das contas… a expectativa que temos de que tudo ira se consumar, que não há outra saída para a criação que não o julgamento e novo céu e nova terra, precisa estar viva em nossas mentes e coração. Tudo, absolutamente tudo que fazemos, deve ser feito na ardente expectativa da volta de Jesus. Maranata, ora vem senhor Jesus! Não quero com isso dizer que você deve cruzar os braços diante de um mundo mal, a mensagem do apocalipse não é essa, mas sim de que haverá sofrimento e dor pelo caminho, mas nós não deixaremos de viver aquilo que cremos e confessamos: Jesus é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, ele dá de beber gratuitamente das fontes de água viva. Maranata, ora vem senhor Jesus!

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Um ser deslocado, fazedor de coisas

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