No fim das contas…

Uma série de mensagens poético-musical sobre os apocalipses da bíblia e da vida. Parte 1 de 4

Acabou. É o fim. No fim das contas, o que restará? Se restará… Desde que se tem registro de dados da humanidade, se tem, advindo da tradição oral, registro sobre o fim do mundo. Visões apocalípticas que geram medo e temor a respeito das condutas e comportamentos no tempo em que se vive.

Na Bíblia, nosso texto sagrado, não é diferente. Os profetas, os apóstolos e o próprio Jesus falaram sobre o fim da história e como eles apontam para a justiça de Deus e a consumação do que você e eu chamamos de tempo e espaço.

Na cultura popular também encontramos estas expressões. E aqui, restrinjo apenas à cultura brasileira. De Carmem Miranda a Marisa Monte, da MPB ao Axé, passando pelas diversas tradições e culturas de um país continental, o que não faltam são previsões, histórias e utopias sobre o fim dos tempos.

No fim das contas… pretende olhar para estas visões registradas no texto da Bíblia Sagrada em quatro perspectivas: O dia do Senhor, As bestas de Daniel, A fala de Jesus sobre o fim dos tempos e o tradicional livro do Apocalipse. Vamos olhar para estes textos dialogando com a arte de nosso país e como suas diversas expressões musicais retrataram este fim dos tempos ou a existência de um mundo ideal.

O dia do Senhor em Joel 2 e Eva de Banda Eva

O ano era 1982. O mundo respirava ares tensos da guerra fria, que era reforçada pelas estéticas punk e rock na música. Lá na Itália o músico Umberto Tozzi, então com trinta anos, lança seu sétimo álbum intitulado Eva. Um misto de rock com instrumentos eletrônicos cuja canção título logo alcança o topo das paradas italianas. No ano seguinte, 1983, no Brasil, a banda paulistana Rádio Taxi lança seu segundo álbum e inclui, no lado B, uma versão de Eva. A música rapidamente cai nas graças do público e alavanca a carreira da banda, que chega ao topo das paradas de sucesso. Damos um salto de quatorze anos e vamos para 1997. A banda baiana de axé Banda Eva grava um álbum ao vivo e incluí, como penúltima música, a gravação de uma versão inusitada do rock de Tozzi com letra da versão de Rádio Taxi. Logo Eva volta às paradas de sucesso, em sua versão axé, e marca mais uma geração no Brasil. Recentemente, em 2020, a banda Far From Alaska, de Natal, Rio Grande do Norte, regrava a canção, numa versão eletrônica, com participação da banda Fresno. Caso queira ouvir as quatro versões, criei uma playlist no YouTubeMusic com elas em ordem cronológica.

O que a música de Tozzi tem de tão especial para cativar tantas pessoas assim ao longo de quase quarenta anos? Como que uma música italiana se tornou marco na cultura brasileira? E o que tudo isso tem a ver com Joel 2? Vamos à letra.

Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu
É o fim da aventura humana na Terra
Meu planeta, adeus
Fugiremos nós dois na Arca de Noé

Olha bem, meu amor,
É o final da odisseia terrestre
Eu sou Adão e você será
Minha pequena Eva
O nosso amor na última astronave
Além do infinito eu vou voar
Sozinho com você
E voando bem alto
Me abraça pelo espaço de um instante
Me cobre com teu corpo e me dá
A força pra viver

E pelo espaço de um instante
Afinal, não há nada mais que o céu azul
Pra gente voar
Sobre o Rio, Beirute ou Madagascar
Toda a Terra reduzida a nada, nada mais
E minha vida é um flash
De controles, botões anti-atômicos

A música é um rock apocalíptico. O mundo está acabando, nada mais resta para se fazer aqui. As ameaças atômicas dos poderosos e suas bombas, acionados pelo mítico botão vermelho e o virar de chaves coordenados fez nascer uma canção romântica em meio a um cenário de destruição total. Nos braços de sua amada, Tozzi sairá do planeta para voar para o infinito, para um não-futuro, um vazio espacial que salvaria suas vidas, mas ao mesmo tempo, os condenariam a ser a força um do outro para viver. O temor de Tozzi não era infundado, Chernobyl ainda não havia acontecido, mas em 1983, dos treze acidentes nucleares registrados até então, oito aconteceram na Europa. O perigo era iminente. Apenas por curiosidade, mais três acidentes aconteceriam, todos nos EUA, até o maior de todos os tempos na Ucrânia, em Pripyat na usina de Chernobyl.

No Brasil do início dos anos 1980 o cenário se soma à inconstante condição financeira do país, afundado em uma espiral de inflação gerada pela ditadura, sem contar as perseguições, mortes e a falta de liberdades individuais e coletivas. Nascia, em 1983, o movimento que culminaria com a abertura política somente em outubro de 1988. A visão apocalíptica de Tozzi abraça a realidade brasileira. Já em 1997, ao que parece, estabilizado economicamente, a Banda Eva retoma a música como uma celebração das liberdades. Chegou-se ao destino? Não, é festa mesmo, costume brasileiro!

Só que Eva não fala de festa. Ela tem um cenário claro. Devastação, guerra e morte. Em meio a tudo isso, uma história de amor. As versões de Rádio Taxi e Banda Eva preservaram, na primeira parte da música, a singular batida original de Tozzi, o tum tum simulando o mesmo som que você ouve ao pressionar seus ouvidos no lado esquerdo do peito da pessoa amada. A vida pulsa em meio ao caos da devastação, guerra e morte e o personagem da música corre para salvá-la. No fim das contas…restará uma “arca de Noé” com um casal vagando pelo espaço até que a vida se acabe e reste o vazio.

Devastação, guerra e morte. Joel nos dá um cenário parecido

1Toquem a trombeta em Sião!
Soem o alarme em meu santo monte!
Que todos tremam de medo,
pois está chegando o dia do SENHOR.
2É um dia de escuridão e trevas,
um dia de densas nuvens e sombras profundas.
Como o amanhecer se estende pelos montes,
assim surge um grande e poderoso exército.
Nunca se viu algo parecido,
e nunca mais se verá.

3À frente deles o fogo arde,
atrás deles vêm chamas.
Diante deles a terra se estende,
bela como o jardim do Éden.
Atrás deles só há desolação;
nada escapa.
4Parecem cavalos,
atacam como cavalos de guerra.
5Olhem para eles, saltando sobre o topo dos montes;
ouçam o barulho que fazem, como o estrondo de carros de guerra,
como o fogo crepitante que devora um campo cheio de palha,
como um exército poderoso que avança para a batalha.

6O medo toma conta do povo;
todo rosto fica pálido de terror.
7Os agressores marcham como guerreiros
e, como soldados, escalam os muros da cidade.
Marcham sempre em frente,
sem deixar suas fileiras.
8Não empurram uns aos outros;
cada um se move na posição correta.
Rompem as linhas de defesa,
sem desfazer a formação.
9Atacam a cidade
e correm ao longo de seus muros.
Entram em todas as casas
e sobem pelas janelas, como ladrões.
10A terra treme com seu avanço,
e os céus estremecem.
O sol e a lua escurecem,
e as estrelas deixam de brilhar.

11O SENHOR está à frente de seu exército;
com um grito, ele o comanda.
É seu exército poderoso
e segue suas ordens.
O dia do SENHOR é espantoso e terrível;
quem poderá sobreviver?

12Por isso, o SENHOR diz:
“Voltem para mim de todo o coração,
venham a mim com jejum, choro e lamento!
13Não rasguem as roupas em sinal de tristeza;
rasguem o coração!”.
Voltem para o SENHOR, seu Deus,
pois ele é misericordioso e compassivo,
lento para se irar e cheio de amor;
está sempre pronto a voltar atrás e não castigar.
14Quem sabe ele mude de ideia
e lhes envie bênção em lugar desse castigo.
Talvez possam apresentar ofertas de cereal e vinho
ao SENHOR, seu Deus, como faziam antes.

15Toquem a trombeta em Sião!
Convoquem um tempo de jejum,
juntem o povo para uma reunião solene.
16Reúnam e consagrem todo o povo,
os anciãos, as crianças e até os bebês.
Chamem o noivo de seu aposento
e a noiva, de seu quarto.
17Que os sacerdotes, que servem na presença do SENHOR,
chorem entre o pórtico do templo e o altar.
Que façam esta oração: “Poupa teu povo, SENHOR!
Não permitas que a nação que pertence a ti se torne objeto de zombaria.
Não deixes que seja motivo de piada para as nações que dizem:
‘Onde está o seu Deus?’”.

18Então o SENHOR teve compaixão de seu povo
e com zelo guardou sua terra.
19O SENHOR respondeu:
“Vejam! Eu lhes envio cereal, vinho novo e azeite,
suficientes para saciá-los.
Vocês não serão mais objeto de zombaria
entre as nações vizinhas.
20Expulsarei esses exércitos que vêm do norte
e os enviarei para uma terra seca e desolada.
Os que estão na vanguarda serão empurrados para o mar Morto,
e os da retaguarda, para o Mediterrâneo.
O mau cheiro dos corpos em decomposição
se espalhará sobre a terra”.

Certamente o SENHOR tem feito grandes coisas!
21Não tema, ó terra;
alegre-se e exulte,
pois o SENHOR tem feito grandes coisas.
22Não tenham medo, animais do campo,
pois os pastos do deserto ficarão verdes.
As árvores voltarão a dar frutos,
as figueiras e as videiras ficarão carregadas.
23Alegrem-se, vocês que habitam em Sião!
Exultem no SENHOR, seu Deus!
Pois ele envia as chuvas na medida certa;
as chuvas de outono voltarão a cair,
e também as chuvas de primavera.
24As eiras voltarão a se encher de trigo,
e os tanques de prensar transbordarão de vinho novo e azeite.

25“Eu lhes devolverei o que perderam por causa
dos gafanhotos migradores, dos saltadores,
dos destruidores e dos cortadores;
enviei esse grande exército devastador contra vocês.
26Vocês voltarão a ter alimento até se saciar
e louvarão o SENHOR, seu Deus,
que realiza esses milagres em seu favor;
nunca mais meu povo será envergonhado.
27Então vocês saberão que estou no meio de Israel,
que sou o SENHOR, seu Deus, e não há nenhum outro;
nunca mais meu povo será envergonhado.”

28“Então, depois que eu tiver feito essas coisas,
derramarei meu Espírito sobre todo tipo de pessoa.
Seus filhos e suas filhas profetizarão;
os velhos terão sonhos,
e os jovens terão visões.
29Naqueles dias, derramarei meu Espírito
até mesmo sobre servos e servas.
30Farei maravilhas nos céus e na terra:
sangue e fogo, e colunas de fumaça.
31O sol se escurecerá,
a lua se tornará vermelha como sangue
antes que chegue o grande e terrível dia do SENHOR.
32Mas todo aquele que invocar o nome do SENHOR
será salvo,
pois alguns no monte Sião, em Jerusalém, escaparão,
como o SENHOR prometeu.
Estarão entre os sobreviventes

Antes do falar do capítulo dois, você precisa conhecer um pouco do Profeta e seu livro. Pouco sabemos sobre Joel, profeta que dá seu nome ao segundo livro dos Doze Profetas e cujo nome significa Javé é Deus. É comum situar sua atuação antes do exílio, no templo, portanto, um profeta cultual. A linguagem de seu texto, no entanto, é do século IV a.C., podendo nos fazer situar a conclusão, com revisões, do livro nesta data. Há quem sugira dois momentos de redação do livro, mas é apenas uma tese que não se sustenta principalmente por conta do aspecto linguístico.

Caso você abra Bíblia Hebraica e comparar com a Bíblia que tem em casa, vai notar que na Bíblia Hebraica Joel tem um capítulo a mais. Isso se deve à divisão diferente de capítulos entre a Septuaginta e o Texto Massorético. O conteúdo do livro é fácil de estruturar. Por ocasião de uma estiagem e uma praga de gafanhotos, o povo é convocado a um lamento coletivo. A praga de gafanhoto é tomada como um sinal do futuro dia de Javé. Javé promete acabar com a aflição do povo, derramando seu Espírito sobre toda criação. O dia de Javé então virá e, com ele, o juízo do mundo. Este juízo significará salvação para os que se convertem e condenação para as nações. Os inimigos derrotados eternamente e Jerusalém a morada eterna das nações. A linguagem e contexto linguístico do livro se assemelham em muito com Isaías 25–27, sendo enquadrado como um texto apocalíptico.

O capítulo dois narra uma tradição presente nos profetas bíblicos e que é uma das chaves de leitura de tudo o que envolve os textos proféticos: o Dia de JAVÉ, ou o Dia do Senhor. Segundo os Salmista e os Profetas, este é o dia em que JAVÉ desceria do seu monte santo para julgar a criação. O terrível dia de trevas, quando todo o mal será posto a termo e, ao final, a verdade triunfará nos braços de Deus. Os primeiros profetas atribuíam o Dia de Javé apenas aos israelitas, este conceito foi sendo ampliado pelos profetas seguintes, culminando no que conhecemos hoje como Dia do Julgamento.

A maneira como este julgamento se dá, para Joel, é expresso em seu poema de maneira muito marcante. A trombeta está soando, o Rei sairá para a guerra! Deus está saindo de seu santo monte e, adiante dele caminha a escuridão, as densas nuvens, seu poderoso exército. O fogo arde, toda a bela criação é consumida pelo pisar de seus pés. Devastação, guerra e morte. O povo estremece. Do primeiro ao décimo primeiro versículo o cenário é aterrorizante. Então Javé para e fala: arrependam-se! O que se segue é a chamada profética ao povo para corrigirem seus caminhos antes do Dia de Javé. No fim das contas…Javé derramará seu Espírito sobre toda criatura, restaurando a vida e a criação.

Diferente da odisseia rock apocalíptica de Eva, Joel não termina no vazio, a vagar pelo vácuo espacial. Ao contrário, o fim é vida. O que se deseja é a vida. Muito do que compreendemos como fim dos tempos está ligado a esta imagem da primeira parte do poema de Joel 2. O julgamento e a sentença, destruindo toda certeza e construindo uma nova realidade. A destruição da criação para renascer uma nova realidade. O poema de Tozzi não está longe disto. Como uma Arca de Noé pós-apocalíptica, ele sai do planeta para reconstruir a humanidade com sua amada. Joel, no entanto, compreende que esta reconstrução não se dará fora daqui, mas sim, aqui mesmo. É na criação que Javé vem para exercer seu juízo. É a partir da criação que tudo se fez vida e tudo se fará novo. Novos céus e nova terra, novo momento, nova vida. A vida não será algo alheio ao que é hoje, e não haverá subterfúgios ou malabarismos. Será a vida sendo criada e recriada a partir do caos gerado pelo confronto da vontade divina com o pecado.

O que tudo isto tem a nos ensinar? Que o fim dos tempos é uma construção e que aquilo que você e eu pensamos a respeito dele não é nem sombra do que virá. Tudo, absolutamente tudo sobre o fim é mistério. E isto veremos ao longo das próximas mensagens. O que Joel nos ensina é que o fim dos tempos é vida. No fim das contas… o que restará é vida. Esta é a conclusão de Joel 2: Mas todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. A salvação virá. Não há o que temer quanto ao futuro. O fim de tudo não é o fim, mas apenas o começo.

Muitos de nós tem esta imagem em mente: um telão passando uma retrospectiva dos piores momentos de nossa vida num tribunal celeste. Deus como juiz, Diabo como promotor e Jesus como nosso advogado. Lá fora, uma fila de pessoas para serem julgadas após nós. Imagem vendida como real, mas nada bíblica. Não haverá tribunal, o fim de tudo não é um processo jurídico, mas um poema divino. A criação de tudo foi um poema, o fim de tudo também o será.

O que Joel 2 nos ensina é que não há devastação, guerra e morte que não encontre o seu fim. E o fim do caos é o poema divino da criação. Vida se cria em meio ao caos. Não tema o fim, tema não viver com Cristo até lá! Devemos ler Joel e os demais profetas que falam do Dia de Javé dentro do contexto em que se encontram e tendo como base o que Jesus disse, o que veremos mais adiante, porque, antes, precisamos falar de outra imagem muito equivocada que carregamos do fim dos tempos e que é baseada na profecia de Daniel 7: as quatro bestas terríveis e o fim dos tempos, é o que falaremos semana que vem. Que Deus nos abençoe.

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Um ser deslocado, fazedor de coisas

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Giovanni Alecrim

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Um ser deslocado, fazedor de coisas