No fim das contas…

Uma série de mensagens poético-musical sobre os apocalipses da bíblia e da vida.

*Os textos abaixo foram publicados separadamente e aqui estão reunidos num artigo único.

**Link da playlist com todas as músicas citadas neste artigo, sendo que a música Eva aparece nas quatro versões citadas e A Cura em duas versões diferentes.

Acabou. É o fim. No fim das contas, o que restará? Se restará… Desde que se tem registro de dados da humanidade, se tem, advindo da tradição oral, registro sobre o fim do mundo. Visões apocalípticas que geram medo e temor a respeito das condutas e comportamentos no tempo em que se vive.

Na Bíblia, nosso texto sagrado, não é diferente. Os profetas, os apóstolos e o próprio Jesus falaram sobre o fim da história e como eles apontam para a justiça de Deus e a consumação do que você e eu chamamos de tempo e espaço.

Na cultura popular também encontramos estas expressões. E aqui, restrinjo apenas à cultura brasileira. De Carmem Miranda a Marisa Monte, da MPB ao Axé, passando pelas diversas tradições e culturas de um país continental, o que não faltam são previsões, histórias e utopias sobre o fim dos tempos.

No fim das contas… pretende olhar para estas visões registradas no texto da Bíblia Sagrada em quatro perspectivas: O dia do Senhor, As bestas de Daniel, A fala de Jesus sobre o fim dos tempos e o tradicional livro do Apocalipse. Vamos olhar para estes textos dialogando com a arte de nosso país e como suas diversas expressões musicais retrataram este fim dos tempos ou a existência de um mundo ideal.

O dia do Senhor em Joel 2 e Eva de Banda Eva

O ano era 1982. O mundo respirava ares tensos da guerra fria, que era reforçada pelas estéticas punk e rock na música. Lá na Itália o músico Umberto Tozzi, então com trinta anos de idade, lança seu sétimo álbum intitulado Eva. Um misto de rock com instrumentos eletrônicos cuja canção título logo alcança o topo das paradas italianas. No ano seguinte, 1983, no Brasil, a banda paulistana Radio Taxi lança seu segundo álbum e inclui, no lado B, uma versão de Eva. A música rapidamente cai nas graças do público e alavanca a carreira da banda, que chega ao topo das paradas de sucesso. Damos um salto de quatorze anos e vamos para 1997. A banda baiana de axé Banda Eva grava um álbum ao vivo e incluí, como penúltima música, a gravação de uma versão inusitada do rock de Tozzi com letra da versão de Rádio Taxi. Logo Eva volta às paradas de sucesso, em sua versão axé, e marca mais uma geração no Brasil. Recentemente, em 2020, a banda Far From Alaska, de Natal, Rio Grande do Norte, regrava a canção, numa versão eletrônica, com participação da banda Fresno.

O que a música de Tozzi tem de tão especial para cativar tantas pessoas assim ao longo de quase quarenta anos? Como que uma música italiana se tornou marco na cultura brasileira? E o que tudo isso tem a ver com Joel 2? Vamos à letra.

Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu
É o fim da aventura humana na Terra
Meu planeta, adeus
Fugiremos nós dois na Arca de Noé
Olha bem, meu amor,
É o final da odisseia terrestre

Eu sou Adão e você será
Minha pequena Eva
O nosso amor na última astronave
Além do infinito eu vou voar
Sozinho com você
E voando bem alto
Me abraça pelo espaço de um instante
Me cobre com teu corpo e me dá
A força pra viver

E pelo espaço de um instante
Afinal, não há nada mais que o céu azul
Pra gente voar
Sobre o Rio, Beirute ou Madagascar
Toda a Terra reduzida a nada, nada mais
E minha vida é um flash
De controles, botões anti-atômicos

A música é um rock apocalíptico. O mundo está acabando, nada mais resta para se fazer aqui. As ameaças atômicas dos poderosos e suas bombas, acionados pelo mítico botão vermelho e o virar de chaves coordenados fez nascer uma canção romântica em meio a um cenário de destruição total. Nos braços de sua amada, Tozzi sairá do planeta para voar para o infinito, para um não-futuro, um vazio espacial que salvaria suas vidas, mas ao mesmo tempo, os condenariam a ser um a força do outro para viver. O temor de Tozzi não era infundado, Chernobyl ainda não havia acontecido, mas em 1983, dos treze acidentes nucleares registrados até então, oito aconteceram na Europa. O perigo era iminente. Apenas por curiosidade, mais três acidentes aconteceriam, todos nos EUA, até o maior de todos os tempos na Ucrânia, em Pripyat na usina de Chernobyl.

No Brasil do início dos anos 1980 o cenário se soma à inconstante condição financeira do país, afundado em uma espiral de inflação gerada pela ditadura, sem contar as perseguições, mortes e a falta de liberdades individuais e coletivas. Nascia, em 1983, o movimento que culminaria com a abertura política somente em outubro de 1988. A visão apocalíptica de Tozzi abraça a realidade brasileira. Já em 1997, ao que parece, estabilizado economicamente, a Banda Eva retoma a música como uma celebração das liberdades. Chegou-se ao destino? Não, é festa mesmo, costume brasileiro!

Só que Eva não fala de festa. Ela tem um cenário claro. Devastação, guerra e morte. Em meio a tudo isso, uma história de amor. As versões de Rádio Taxi e Banda Eva preservaram, na primeira parte da música, a singular batida original de Tozzi, o tum tum simulando o mesmo som que você ouve ao pressionar seus ouvidos no lado esquerdo do peito da pessoa amada. A vida pulsa em meio ao caos da devastação, guerra e morte e o personagem da música corre para salvá-la. No fim das contas…restará uma “arca de Noé” com um casal vagando pelo espaço até que a vida se acabe e reste o vazio.

Devastação, guerra e morte. Joel nos dá um cenário parecido

1Toquem a trombeta em Sião!
Soem o alarme em meu santo monte!
Que todos tremam de medo,
pois está chegando o dia do SENHOR.
2É um dia de escuridão e trevas,
um dia de densas nuvens e sombras profundas.
Como o amanhecer se estende pelos montes,
assim surge um grande e poderoso exército.
Nunca se viu algo parecido,
e nunca mais se verá.

3À frente deles o fogo arde,
atrás deles vêm chamas.
Diante deles a terra se estende,
bela como o jardim do Éden.
Atrás deles só há desolação;
nada escapa.
4Parecem cavalos,
atacam como cavalos de guerra.
5Olhem para eles, saltando sobre o topo dos montes;
ouçam o barulho que fazem, como o estrondo de carros de guerra,
como o fogo crepitante que devora um campo cheio de palha,
como um exército poderoso que avança para a batalha.

6O medo toma conta do povo;
todo rosto fica pálido de terror.
7Os agressores marcham como guerreiros
e, como soldados, escalam os muros da cidade.
Marcham sempre em frente,
sem deixar suas fileiras.
8Não empurram uns aos outros;
cada um se move na posição correta.
Rompem as linhas de defesa,
sem desfazer a formação.
9Atacam a cidade
e correm ao longo de seus muros.
Entram em todas as casas
e sobem pelas janelas, como ladrões.
10A terra treme com seu avanço,
e os céus estremecem.
O sol e a lua escurecem,
e as estrelas deixam de brilhar.

11O SENHOR está à frente de seu exército;
com um grito, ele o comanda.
É seu exército poderoso
e segue suas ordens.
O dia do SENHOR é espantoso e terrível;
quem poderá sobreviver?

12Por isso, o SENHOR diz:
“Voltem para mim de todo o coração,
venham a mim com jejum, choro e lamento!
13Não rasguem as roupas em sinal de tristeza;
rasguem o coração!”.
Voltem para o SENHOR, seu Deus,
pois ele é misericordioso e compassivo,
lento para se irar e cheio de amor;
está sempre pronto a voltar atrás e não castigar.
14Quem sabe ele mude de ideia
e lhes envie bênção em lugar desse castigo.
Talvez possam apresentar ofertas de cereal e vinho
ao SENHOR, seu Deus, como faziam antes.

15Toquem a trombeta em Sião!
Convoquem um tempo de jejum,
juntem o povo para uma reunião solene.
16Reúnam e consagrem todo o povo,
os anciãos, as crianças e até os bebês.
Chamem o noivo de seu aposento
e a noiva, de seu quarto.
17Que os sacerdotes, que servem na presença do SENHOR,
chorem entre o pórtico do templo e o altar.
Que façam esta oração: “Poupa teu povo, SENHOR!
Não permitas que a nação que pertence a ti se torne objeto de zombaria.
Não deixes que seja motivo de piada para as nações que dizem:
‘Onde está o seu Deus?’”.
18Então o SENHOR teve compaixão de seu povo
e com zelo guardou sua terra.
19O SENHOR respondeu:
“Vejam! Eu lhes envio cereal, vinho novo e azeite,
suficientes para saciá-los.
Vocês não serão mais objeto de zombaria
entre as nações vizinhas.
20Expulsarei esses exércitos que vêm do norte
e os enviarei para uma terra seca e desolada.
Os que estão na vanguarda serão empurrados para o mar Morto,
e os da retaguarda, para o Mediterrâneo.
O mau cheiro dos corpos em decomposição
se espalhará sobre a terra”.

Certamente o SENHOR tem feito grandes coisas!
21Não tema, ó terra;
alegre-se e exulte,
pois o SENHOR tem feito grandes coisas.
22Não tenham medo, animais do campo,
pois os pastos do deserto ficarão verdes.
As árvores voltarão a dar frutos,
as figueiras e as videiras ficarão carregadas.
23Alegrem-se, vocês que habitam em Sião!
Exultem no SENHOR, seu Deus!
Pois ele envia as chuvas na medida certa;
as chuvas de outono voltarão a cair,
e também as chuvas de primavera.
24As eiras voltarão a se encher de trigo,
e os tanques de prensar transbordarão de vinho novo e azeite.

25“Eu lhes devolverei o que perderam por causa
dos gafanhotos migradores, dos saltadores,
dos destruidores e dos cortadores;
enviei esse grande exército devastador contra vocês.
26Vocês voltarão a ter alimento até se saciar
e louvarão o SENHOR, seu Deus,
que realiza esses milagres em seu favor;
nunca mais meu povo será envergonhado.
27Então vocês saberão que estou no meio de Israel,
que sou o SENHOR, seu Deus, e não há nenhum outro;
nunca mais meu povo será envergonhado.”

28“Então, depois que eu tiver feito essas coisas,
derramarei meu Espírito sobre todo tipo de pessoa.
Seus filhos e suas filhas profetizarão;
os velhos terão sonhos,
e os jovens terão visões.
29Naqueles dias, derramarei meu Espírito
até mesmo sobre servos e servas.
30Farei maravilhas nos céus e na terra:
sangue e fogo, e colunas de fumaça.
31O sol se escurecerá,
a lua se tornará vermelha como sangue
antes que chegue o grande e terrível dia do SENHOR.
32Mas todo aquele que invocar o nome do SENHOR
será salvo,
pois alguns no monte Sião, em Jerusalém, escaparão,
como o SENHOR prometeu.
Estarão entre os sobreviventes

Antes do falar do capítulo dois, você precisa conhecer um pouco do Profeta e seu livro. Pouco sabemos sobre Joel, profeta que dá seu nome ao segundo livro dos Doze Profetas e cujo nome significa Javé é Deus. É comum situar sua atuação antes do exílio, no templo, portanto, um profeta cultual. A linguagem de seu texto, no entanto, é do século IV a.C., o que pode nos fazer situar a conclusão, com revisões, do livro nesta data. Há quem sugira dois momentos de redação do livro, mas é apenas uma tese que não se sustenta principalmente por conta do aspecto linguístico.

Caso você abra Bíblia Hebraica e comparar com a Bíblia que tem em casa, vai notar que na Bíblia Hebraica Joel tem um capítulo a mais. Isso se deve à divisão diferente de capítulos entre a Septuaginta e o Texto Massorético. O conteúdo do livro é fácil de estruturar. Por ocasião de uma estiagem e uma praga de gafanhotos, o povo é convocado a um lamento coletivo. A praga de gafanhoto é tomada como um sinal do futuro dia de Javé. Javé promete acabar com a aflição do povo, derramando seu Espírito sobre toda criação. O dia de Javé então virá e, com ele, o juízo do mundo. Este juízo significará salvação para os que se convertem e condenação para as nações. Os inimigos derrotados eternamente e Jerusalém a morada eterna das nações. A linguagem e contexto linguístico do livro se assemelham em muito com Isaías 25–27, sendo enquadrado como um texto apocalíptico.

O capítulo dois narra uma tradição presente nos profetas bíblicos e que é uma das chaves de leitura de tudo o que envolve os textos proféticos: o Dia de JAVÉ, ou o Dia do Senhor. Segundo os Salmista e os Profetas, este é o dia em que JAVÉ desceria do seu monte santo para julgar a criação. O terrível dia de trevas, quando todo o mal será posto a termo e, ao final, a verdade triunfará nos braços de Deus. Os primeiros profetas atribuíam o Dia de Javé apenas aos israelitas, este conceito foi sendo ampliado pelos profetas seguintes, culminando no que conhecemos hoje como Dia do Julgamento.

A maneira como este julgamento se dá, para Joel, é expresso em seu poema de maneira muito marcante. A trombeta está soando, o Rei sairá para a guerra! Deus está saindo de seu santo monte e, adiante dele vai a escuridão, as densas nuvens, seu poderoso exército. O fogo arde, toda a bela criação é consumida pelo pisar de seus pés. Devastação, guerra e morte. O povo estremece. Do primeiro ao décimo primeiro versículo o cenário é aterrorizante. Então Javé para e fala: arrependam-se! O que se segue é a chamada profética ao povo para que corrijam seus caminhos antes do Dia de Javé. No fim das contas…Javé derramará seu Espírito sobre toda criatura, restaurando a vida e a criação.

Diferente da odisseia rock apocalíptica de Eva, Joel não termina no vazio, a vagar pelo vácuo espacial. Ao contrário, o fim é vida. O que se deseja é a vida. Muito do que compreendemos como fim dos tempos está ligado a esta imagem da primeira parte do poema de Joel 2. O julgamento e a sentença, destruindo toda certeza e construindo uma nova realidade. A destruição da criação para que renasça uma nova realidade. O poema de Tozzi não está longe disto. Como uma Arca de Noé pós-apocalíptica, ele sai do planeta para reconstruir a humanidade com sua amada. Joel, no entanto, compreende que esta reconstrução não se dará fora daqui, mas sim, aqui mesmo. É na criação que Javé vem para exercer seu juízo. É a partir da criação que tudo se fez vida e tudo se fará novo. Novos céus e nova terra, novo momento, nova vida. A vida não será algo alheio ao que é hoje, e não haverá subterfúgios ou malabarismos. Será a vida sendo criada e recriada à partir do caos gerado pelo confronto da vontade divina com o pecado.

O que tudo isto tem a nos ensinar? Que o fim dos tempos é uma construção e que aquilo que você e eu pensamos a respeito dele não é nem sombra do que virá. Tudo, absolutamente tudo sobre o fim é mistério. E isto veremos ao longo das próximas mensagens. O que Joel nos ensina é que o fim dos tempos é vida. No fim das contas… o que restará é vida. Esta é a conclusão de Joel 2: Mas todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. A salvação virá. Não há o que temer quanto ao futuro. O fim de tudo não é o fim, mas apenas o começo.

Muitos de nós tem esta imagem em mente: um telão passando uma retrospectiva dos piores momentos de nossa vida num tribunal celeste. Deus como juiz, Diabo como promotor e Jesus como nosso advogado. Lá fora, uma fila de pessoas para serem julgadas depois de nós. Imagem vendida como real, mas nada bíblica. Não haverá tribunal, o fim de tudo não é um processo jurídico, mas um poema divino. A criação de tudo foi um poema, o fim de tudo também o será.

O que Joel 2 nos ensina é que não há devastação, guerra e morte que não encontre o seu fim. E o fim do caos é o poema divino da criação. Vida se cria em meio ao caos. Não tema o fim, tema não viver com Cristo até lá! Devemos ler Joel e os demais profetas que falam do Dia de Javé dentro do contexto em que se encontram e tendo como base o que Jesus disse, que é o que veremos mais adiante, porque, antes, precisamos falar de outra imagem muito equivocada que carregamos do fim dos tempos e que é baseada na profecia de Daniel 7.

As quatro bestas de Daniel 7 e A cura de Lulu Santos

O ano era 1988. O Brasil aprovava sua constituição democrática e olhava para o futuro com esperança. O mundo estava envolto à uma epidemia que dava visibilidade a um povo, até então, ignorado, criminalizado e hostilizado em nosso meio. A pandemia do SIDA, ou da AIDS, como ficou popularmente chamada no Brasil, era uma realidade e ceifava vidas, principalmente entre a população homoafetiva. O que estigmatizou ainda mais tal doença e levou a população em geral, e o governo, a estigmatizar a doença como sendo ligada aos gays. Até o dia em que os chamados “cidadãos ilibados” passaram a contrair e morrer de AIDS.

Neste contexto, a desinformação e a ignorância foram combustível para muita discriminação e violência, chegando a matar pessoas, não pela doença, mas por tiro, socos e agressões. É neste contexto que o cantor carioca Lulu Santos lança seu sétimo álbum, Toda forma de amor, onde, no lado B, temos a canção intitulada A cura. Sobre a canção, diz Lulu Santos:

“Esta é uma canção que escrevi em 1988 impacto pelo efeito da primeira epidemia que a humanidade enfrentou na segunda metade do século XX, que foi a AIDS. Vi uma quantidade enorme de artistas importantes que eu acompanhava e mesmo amigos próximos serem levados. Aquilo me tocou de uma forma que eu tive que expressar uma mensagem de esperança de alguma cura. Passam-se 20 e alguns anos e está de novo a humanidade enfrentando uma situação semelhante e bem menos seletiva. Bem mais geral e continua aqui a esperança: “Existirá e toda raça então experimentará para todo mal, a cura”.

A música voltou a ser muito tocada em 2020, quando o anúncio da aprovação das vacinas contra a COVID-19 foi feito e se tornou imediatamente um hino para aqueles que sabem que a cura existe e está acessível.

Vamos então à letra desta obra de Lulu Santos e compreender sua relação conosco.

Existirá, em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá, todo farol iluminará
Uma ponta de esperança

E se virá, será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá toda certeza vã
Não sobrará pedra sobre pedra

Enquanto isso, não nos custa insistir
Na questão do desejo, não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê que o inferno é aqui

Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal, a cura

A letra fala de esperança. As imagens da abertura da música são do mar. Como um barco à deriva em um mar revolto, o marinheiro espera ver tremular a bandeira de um porto, a brilhar a luz de um farol que o trará para um porto seguro, para um lugar de salvação. Quando ele verá? Como isso acontecerá? Ele não sabe, mas sabe que vai demolir as certezas dos profetas do fim do mundo, dos que só veem destruição e morte nos males temporários e circunstanciais de uma tempestade. Por isso ele canta: demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra. Neste canto de esperança, o mal se apresenta como algo passageiro, presente, real, mas circunstancial. Ele não será eterno, pois haverá um dia em que a cura se derramará e o mal não terá mais domínio, aqui não é o inferno, aqui é a vida e a cura existe.

A intenção de Lulu Santos, conforme citado acima, não era de construir um cântico de cunho religioso, mas sim de esperança em meio à falta de políticas públicas sérias no combate à AIDS na década de 1980. Ele chamava atenção para uma realidade que estava ali, presente, mas que era constantemente ignorada e abafada, combatida e excluída, como se isso fizesse a realidade desaparecer.

O que A cura tem a ver com Daniel e a profecia das quatro bestas? Por que esse fascínio cristão por um livro apocalíptico judeu? E mais, o que isso tudo tem a nos ensinar? Vamos ao texto de Daniel 7

1Anteriormente, durante o primeiro ano do reinado de Belsazar, rei da Babilônia, Daniel teve um sonho e visões enquanto estava deitado em sua cama. Escreveu o que havia sonhado e foi isto que viu.

2Naquela noite em minha visão, eu, Daniel, vi uma tempestade que agitava o grande mar, com ventos fortes que sopravam de todas as direções. 3Então, saíram da água quatro bestas enormes, cada uma diferente das demais.

4A primeira besta era como um leão com asas de águia. Enquanto eu observava, suas asas foram arrancadas e ela ficou em pé no chão, sobre as duas patas traseiras, como um ser humano. E lhe foi dada mente humana.

5Vi, então, a segunda besta, e ela se parecia com um urso. Levantou-se sobre um dos lados e tinha na boca, entre os dentes, três costelas. E lhe foi dito: “Levante-se! Devore a carne de muitos!”.

6Em seguida, surgiu a terceira dessas bestas, que se parecia com um leopardo. Tinha quatro asas de ave nas costas e quatro cabeças. E lhe foi dada grande autoridade.

7Então, em minha visão naquela noite, vi uma quarta besta, terrível, assustadora e muito forte. Devorava e despedaçava suas vítimas com grandes dentes de ferro e esmagava os restos debaixo de seus pés. Era diferente das outras três e tinha dez chifres.

8Enquanto eu olhava para os chifres, de repente apareceu no meio deles outro chifre pequeno. Três dos chifres maiores foram arrancados pela raiz para dar lugar a ele. Esse chifre pequeno tinha olhos, como de homem, e uma boca que falava com arrogância.

9Enquanto eu observava, foram colocados alguns tronos,
e o Ancião se sentou para julgar.
Suas roupas eram brancas como a neve,
e seu cabelo, como a mais pura lã.
Sentava-se num trono de fogo,
com rodas de chamas ardentes,
10e um rio de fogo
brotava de sua presença.
Milhões de anjos o serviam,
muitos milhões estavam diante dele.
O tribunal iniciou o julgamento,
e os livros foram abertos.

11Continuei a observar, pois podia ouvir as palavras arrogantes do pequeno chifre. Fiquei olhando até que a quarta besta foi morta e seu corpo, destruído e lançado ao fogo. 12Então foi tirada a autoridade das outras três bestas, mas elas tiveram permissão de viver por mais algum tempo.

13Depois, em minha visão naquela noite, vi alguém semelhante a um filho de homem vindo com as nuvens do céu. Ele se aproximou do Ancião e foi conduzido à sua presença. 14Recebeu autoridade, honra e soberania, para que povos de todas as raças, nações e línguas lhe obedecessem. Seu domínio é eterno; não terá fim. Seu reino jamais será destruído.

15Eu, Daniel, fiquei perturbado com tudo que tinha visto, e minhas visões me aterrorizaram. 16Por isso aproximei-me de um dos que estavam em pé junto ao trono e perguntei o que tudo aquilo significava. Ele explicou: 17“Essas quatro grandes bestas representam quatro reinos que surgirão da terra. 18No final, porém, o reino será entregue ao povo santo do Altíssimo, e eles dominarão para todo o sempre”.

19Então eu quis saber o verdadeiro signifi­cado da quarta besta, tão diferente das demais e tão aterrorizante. Ela havia devorado e despedaçado suas vítimas com dentes de ferro e garras de bronze e esmagado os restos com os pés. 20Também quis saber sobre os dez chifres em sua cabeça e o pequeno chifre que surgiu depois e derrubou três dos outros chifres. Esse chifre parecia mais forte que os demais e tinha olhos humanos e uma boca que falava com arrogância. 21Enquanto eu observava, esse chifre guerreava contra o povo santo de Deus e o derrotava, 22até que o Ancião, o Altíssimo, veio e pronunciou a sentença em favor de seu povo santo. Então chegou o tempo de o povo santo tomar posse do reino.

23Depois ele me disse: “A quarta besta é o quarto reino que dominará a terra, e será diferente de todos os outros. Devorará o mundo inteiro, pisoteará e esmagará tudo que estiver em seu caminho. 24Seus dez chifres são dez reis que governarão esse império. Então surgirá outro rei, diferente dos dez, que subjugará três reis. 25Ele desafiará o Altíssimo e oprimirá o povo santo do Altíssimo. Tentará mudar suas festas sagradas e suas leis, e eles serão colocados sob o controle dele por um tempo, tempos, e meio tempo.

26“Contudo, o tribunal o julgará, e todo o seu poder será tirado e completamente destruído. 27Então serão dados ao povo santo do Altíssimo a soberania, o poder e a grandeza de todos os reinos debaixo dos céus. O reino do Altíssimo permanecerá para sempre, e todos os governantes o servirão e lhe obedecerão”.

28Assim terminou a visão. Eu, Daniel, fiquei aterrorizado por causa de meus pensamentos e meu rosto ficou pálido de medo, mas não contei essas coisas a ninguém.

Antes de falarmos do capítulo sete, vamos falar do livro de Daniel: Daniel foi deportado em 597 a.C. juntamente com três amigos pelas tropas de Nabucodonosor para a Babilônia. Ele é o personagem central do livro que leva seu nome. O livro do profeta Ezequiel parece ter um carinho por sua história. Ele é citado ao lado de Jó e Noé como uma pessoa justa da antiguidade em 14.14,20 e apontado como uma pessoa de sabedoria especial em 28.3. Esta última característica é enfatizada no livro de Daniel, principalmente por conta das revelações dos sonhos, o que, acontecendo em uma corte, torna inevitável não nos lembrarmos de José na corte egípcia do faraó.

Talvez você não saiba, mas Daniel é o livro mais recente do cânon hebraico. Sua inclusão aconteceu entre os livros chamados Escritos, e não entre os profetas. Mais tarde, a Septuaginta irá colocá-lo entre os chamados Profetas Maiores. Acredita-se que havia certa resistência rabínica quanto a inclusão do livro no cânon, principalmente por conta das rebeliões dos judeus contra os romanos, que eram articuladas a partir das visões apocalípticas de Daniel. Seja o que for, o livro entrou no cânon e é reconhecido como profético pelos autores do Novo Testamento.

O livro pode claramente ser dividido para leitura em dois grandes eixos: histórias e visões. Na primeira parte, os relatos sobre Daniel e seus amigos, na segunda, as visões propriamente ditas. Além disso, o livro é bilíngue. Daniel 1.1–2.4a e 8–12 é escrito em hebraico, todo o restante é em aramaico. Há ainda questionamentos se o capítulo 1 não teria sido escrito em aramaico e traduzido posteriormente.

O gênero literário do livro é apocalipse. As tradições e gêneros menores são organizados na estrutura do livro com o fim de revelar conhecimento sobre o final do tempo. Não se trata, portanto, de um evento único no futuro, mas de uma visão global de todos os acontecimentos até o princípio do novo tempo. Essa visão tem como propósito mais compreender o tempo presente que revelar mistérios futuros.

E o que o presente do profeta quer nos dizer, com base no capítulo 7? O sétimo capítulo é uma virada na escrita do livro. Não mais o rei tem visões, mas sim o próprio profeta. Ele não é mais um intérprete de sonhos de terceiros, mas sim de seus próprios. Na visão do capítulo sete temos a imagem de quatro bestas: leão com asas, urso, leopardo com quatro asas e uma sem identificação. Todas elas são feras terrestres, algumas com características aéreas, e que saem da água para a terra.

O que representam tais feras? Quatro impérios dos quais Daniel tinha conhecimento. A primeira fera, o Leão alado, representa Nabucodonosor e seu Império Babilônico, que do alto de sua arrogância, tem suas asas arrancadas e se torna um comum humano, não mais um ser especial. A segunda fera, o urso, representa o Império Medo, que em sua posição meio deitado, meio levantado, está pronto para devorar a qualquer momento. A terceira fera, o leopardo (em algumas traduções aparece como pantera), é o Império Persa. sua habilidade é representada pelas quatro asas, que o fazem se locomover rapidamente, e pelas quatro cabeças, que conseguem captar tudo o que acontece nos quatro cantos ao seu redor. A quarta e última fera não é possível identificar, Daniel a interpreta como sendo Alexandre, o Grande e seu Império Macedônio, visto particularmente na perspectiva da atuação selêucida sobre os judeus.

Até aqui tudo nos parece simples e de fácil associação. Quatro bestas, quatro impérios. Daniel, no entanto, adentra na imagem da quarta besta para tentar entender seu contexto. Ele veio num crescente histórico dos Impérios que dominaram a judeia e, agora, está diante do atual dominador. Agora, não a besta ganha forma humana, como leão alado, mas sim uma parte da besta. O chifre menor que nasce rasgando três outros, tem na sua ponta olhos e boca, e era bem arrogante. É nesse contexto que o julgamento se inicia e a grande besta é julgada e condenada, sendo a única exterminada imediatamente. No fim, o mal será extirpado e o reino eterno estabelecido.

A visão de Daniel apresenta uma realidade de seu contexto. Profundamente oprimidos pelos selêucidas, os judeus enfrentavam constante morte e perseguição. A força do Império Macedônio era notória e sua extensão cada vez maior. Para quem está vivendo o presente, o passado lhe parecerá sempre melhor. Não é o caso, Daniel aponta que o passado com o leão, o urso e o leopardo foram difíceis, ruins para Israel, e o presente é pior ainda, mas o melhor está no futuro, o julgamento virá sobre as nações e haverá salvação. No fim das contas… os impérios sucumbirão e retará o governo do Altíssimo.

Vivemos nossas realidades cercadas de bestas feras a nos oprimir o tempo todo. Impérios humanos que querem se valer do poder para dominar e lucrar. Muitos são os exemplos, do consumismo às drogas ilícitas, da política à religiosidade nociva, sempre haverá quem prefira o mal ao bem, a doença à cura. No nosso contexto, a profecia de Daniel vem para nos lembrar que bestas sempre existirão na história da humanidade, impérios irão se levantar e ruir, todos serão julgados pela história, mas principalmente, todos serão postos diante de Deus, que coloca fim ao mal.

Esta verdade precisa ser apropriada por nós, cristãos do século XXI, que tem assistido poderes invadindo a Igreja, se camuflando de bons cristãos, mas que na verdade são feras devoradoras, prontas para usar da Igreja e, principalmente, do povo da Igreja para satisfazer seus desejos de poder glória neste mundo. Há um mal grande nos assolando e precisamos manter firmes a consciência de que o mal tem fim.

Esta verdade precisa ser apropriada por cada um de nós, individualmente, em nossos universos particulares, em relação às nossas dores e problemas. Muitas são as feras que se levantam. Os problemas são gigantescos e, por nós mesmos, não vemos solução. Como o marinheiro desesperançado, sem perspectiva de ver terra firme, nos agarramos a nós mesmos em meio ao mar de problemas que nos cercam. Daniel nos convida a erguer os olhos e, nas palavras de Lulu Santos, enxergar que para todo mal existe a cura.

Não é uma cura para um mal, é A cura, definitiva, permanente, que demolirá o entendimento humano como as visões de Daniel o demoliram, que romperá com a lógica de que o inferno é aqui, pois só temos dias ruins, que acabará com o discurso pessimista e alarmista dos que só veem morte e destruição no outro, que nos colocará na certeza de que o amor existe e que vivemos para experimentar em nossos corpos e mentes a liberdade que vem de Cristo Jesus.

No fim das contas… restará para nós a vida, pura e simples, ao lado do Altíssimo, que nos convida a não temer as feras que se levantam ao longo da história e desejar ardentemente o Reino do Altíssimo, em que todos, inclusive os poderosos, se curvarão. O Reino virá, e não se trata de uma utopia de mais de dois mil anos, posto que já é realidade.

O fim dos tempos segundo Jesus em Lucas 17 e Coração Civil de Milton Nascimento

O autor da canção de hoje talvez dispensasse apresentações. Ao menos deveria. No entanto, por experiências recentes, descobri que certos baluartes culturais de nosso país não são tão conhecidos assim e, por isso mesmo, passo a falar deste que é o maior poeta musical de nosso país, o melhor cantor, compositor e poeta. Nascido no Rio de Janeiro, numa favela na Tijuca, foi adotado por um casal de Três Pontas, MG, onde cresceu e começou sua carreira musical. Em Minas, Milton renasce enquanto ser humano democrático, sonhador, poeta e profeta de uma geração inteira.

Uma das memórias mais antigas que tenho é de um baú que ficava no escritório de nossa casa, na Gumercindo Couto e Silva, no bairro do Itapuã, em Belo Horizonte. Eu lembro de abrir este Baú e ir olhando as capas dos discos de vinil de meus pais. Dentre os discos, muitos eram dele, Milton Nascimento. A imagem do rosto de perfil, com a boca levemente aberta, num close entre a sobrancelha e o lábio inferior, que é a capa do álbum Caçador de Mim, é uma das imagens mais antigas que tenho em minha mente. Gravado e regravado, Bituca, apelido que recebeu na época de estudante em Belo Horizonte, já era um ícone. Não dá para descrever a dimensão deste homem que, neste ano de 2022 anuncia o encerramento de sua carreira. Emociono-me sempre que me refiro a ele, não dá para descrever a dimensão dele na minha formação como ser humano, cidadão e cristão.

Em 1981, Milton Nascimento lança Caçador de Mim, seu décimo quarto álbum de estúdio. A esta altura, Milton já era reverenciado dentro e fora do país como cantor e compositor. Deste álbum, além da faixa título, muito conhecida, temos ainda o clássico Nos Bailes da Vida. É no lado B deste álbum, como penúltima música, que está Coração Civil, a canção que fala de uma utopia possível, visto que existe, mas que ainda é utopia, visto parecer-nos impossível. O sonhador Milton assim diz sua utopia:

Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade dos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país

Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver

São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal

Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu viver bem melhor
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar

A música, parceria de Milton Nascimento com Fernando Brant, fala de coisas boas, de uma felicidade que nasce da vida, da alegria, da justiça, liberdade, amizade. Fala de uma mudança de realidade onde os uniformes, as armas e a violência são os meios de poder, para uma sociedade mais humana, real, e popular. Milton está claramente apontando para a realidade de seu tempo. Militares no poder, perseguição e violência. Mas ele também está falando de uma realidade maior, da história de uma nação cuja república nasce de um golpe militar. Milton está falando da necessidade de um coração civil numa nação militarizada. O também mineiro, jornalista e cartunista Rafael Senra, define muito bem a maneira como Milton consegue compor incluindo o mundo em suas canções, diz Senra:

Está presente nessa letra o toque lírico e poético que marcaram as obras do autor de Canção da América: o universal e o regional, a amizade e o senso de cidadania, sonho, menino, cidade, liberdade.

Este poder contemplador da realidade de Milton é expresso na abertura da música e se estende em sua segunda estrofe. São José da Costa Rica é um país da América Central que é o único da América Latina a constar na lista de democracias mais antigas da era moderna. O que há de tão especial em Costa Rica para inspirar o Brasil? O coração civil, uma nação feita por civis e para civis. Em 1º dezembro de 1948 o governo civil recém-empossado aboliu o Exército — o primeiro país do mundo a fazê-lo. E ao fazê-lo, transformou o antigo quartel em uma escola.

Ao longo do século XX, a Costa Rica enfrentou graves crises econômicas, ameaças à sua democracia, mas manteve sua política democrata e popular voltada para a paz e a construção de uma sociedade desmilitarizada. Foi assim que, em meados da década de 1980, o Presidente Óscar Arias Sánchez recebeu o Nobel da Paz por intermediar soluções pacíficas para as guerras civis na Nicarágua e El Salvador.

Todo este sonho de uma sociedade sem feitiços para imposição de poder é que inspira Milton Nascimento e Fernando Brant a escrever, cantar e sonhar. A utopia deles é um país de paz, sem armas, sem poder imposto pela força, com aquilo que o ser humano consegue fazer de bom.

No fim das contas… o que Milton e Brant nos propõe é a reconstrução de uma realidade a partir da perspectiva dos valores da primeira estrofe da canção: felicidade, alegria, justiça, liberdade e amizade. Estes não são valores impostos, mas cultivados e vividos com sinceridade.

O que Coração Civil tem a ver com Jesus e sua conversa com os fariseus e com os discípulos? Por que esperamos eventos apocalípticos grandiosos? E o que isso tudo tem a nos ensinar? Vamos ao texto de Lucas 17.20–37

20Certo dia, os fariseus perguntaram a Jesus: “Quando virá o reino de Deus?”.

Jesus respondeu: “O reino de Deus não é detectado por sinais visíveis. 21Não se poderá dizer: ‘Está aqui!’ ou ‘Está ali!’, pois o reino de Deus já está entre vocês”.

22Então ele disse a seus discípulos: “Aproximam-se os dias em que desejarão ver o tempo do Filho do Homem, mas não o verão. 23Dirão a vocês: ‘Vejam, lá está!’ ou ‘Aqui está ele!’, mas não os sigam. 24Porque, assim como o relâmpago lampeja e ilumina o céu de uma extremidade a outra, assim será no dia em que vier o Filho do Homem. 25Mas primeiro é necessário que ele sofra terrivelmente e seja rejeitado por esta geração.

26“Quando o Filho do Homem voltar, será como no tempo de Noé. 27Naqueles dias, o povo seguia sua rotina de banquetes, festas e casamentos, até o dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio, que destruiu a todos.

28“E o mundo será como no tempo de Ló. O povo se ocupava de seus afazeres diários, comendo e bebendo, comprando e vendendo, cultivando e construindo, 29até o dia em que Ló deixou Sodoma. Então fogo e enxofre ardente caíram do céu e destruíram a todos. 30Sim, tudo será como sempre foi até o dia em que o Filho do Homem for revelado. 31Nesse dia, quem estiver na parte de cima da casa, não desça para pegar suas coisas. Quem estiver no campo, não volte para casa. 32Lembrem-se do que aconteceu à esposa de Ló! 33Quem se apegar à própria vida a perderá; quem abrir mão de sua vida a salvará. 34Naquela noite, duas pessoas estarão dormindo na mesma cama; uma será levada, e a outra, deixada. 35Duas mulheres estarão moendo cereal no moinho; uma será levada, e a outra, deixada. 36Dois homens estarão trabalhando juntos num campo; um será levado, e o outro, deixado”.

37“Senhor, onde isso acontecerá?”, perguntaram os discípulos. Jesus respondeu: “Onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres”.

Quem começa a ler o capítulo 17 de Lucas, percebe que o evangelista está preocupado em falar de fé, perdão e cura. O texto anterior ao nosso é a cura dos dez leprosos, em que apenas um volta para dar glórias a Deus, a saber, o único estrangeiro. Neste contexto, o encontro com os fariseus parece deslocado. Lucas inicia o bloco com “certo dia…”, já para nos mostrar um distanciamento temporal e espacial dos acontecimentos anteriores. E de fato há, no entanto, este distanciamento não interfere na temática, como veremos a seguir.

Jesus está em mais um encontro com os fariseus, algo comum no evangelho de Lucas. Estes querem saber dele do Reino de Deus. Aqui precisamos entender a expectativa de Reino que eles tinham. Esperavam um reino messiânico, onde um grande salvador da pátria marcharia sobre as nações e entraria em Jerusalém para libertar a Judeia de uma vez por todas. Eles seriam meros espectadores deste agir, sem tomar parte da obra e da concretização deste Reino. Por isso a pergunta não é “Quem faz parte do Reino de Deus?”, pois eles se pressupõem como parte dele. Também não é “O que é o Reino de Deus?”, pois para eles está claro que é o domínio militar e político de Israel. A pergunta é “Quando virá o Reino de Deus?” pois pressupõe que ele virá e será aterrorizante e libertador.

Muitos de nós somos farisaicos neste sentido. Estamos aguardando o libertador, o salvador da pátria, o solucionador dos problemas. E para estes que assim esperam, tanto quanto para os fariseus de nosso texto, a resposta de Jesus é frustrante. “O reino de Deus não é detectável por sinais visíveis”. Não é um evento futuro, nem tão pouco mirabolante, com os feitiços para ter poder. O reino está entre vocês. Ao dizer isto, Jesus afirma que o Reino está ali, acontecendo com ele os discípulos, e os fariseus se negam a ver. Mas ele também está dizendo que está aqui, comigo e com você, e muitos se negam a ver. Jesus tenta abrir os olhos dos fariseus para que vejam que o Reino de Deus é, antes de mais nada, a ação espiritual em prol dos problemas reais e palpáveis, tal qual a cura dos leprosos que Jesus promovera no trecho anterior ao nosso.

É neste momento que ele chama seus discípulos para uma conversa mais particular. Aqui, num primeiro momento, Jesus está preocupado em preparar os discípulos para o que eles viveriam em breve. Muitos messias apareceram no século, I, e muitos aparecem até hoje, se apresentando como salvadores da pátria, do mundo, da sociedade. Jesus alerta: antes de pensar nisso tudo, vocês me verão sofrer. Apenas após o martírio e ressurreição é que a volta pode acontecer.

E como será? Quando será? Não sabemos. Jesus usa duas imagens muito conhecidas de seu público. Noé e Ló. Assim como no tempo de Noé, a vida acontecia normalmente quando o dilúvio chega de surpresa para todos, exceto Noé, assim será o retorno do Filho do Homem. Assim como no tempo de Ló as pessoas viviam normalmente até o dia da saída de Ló de Sodoma. De igual modo, a vida acontecerá normalmente até que o Filho do Homem apareça. Há uma alerta aqui: Quem se apegar à própria vida a perderá; quem abrir mão de sua vida a salvará.

Então Jesus fala da separação que acontecerá. Erroneamente se interpreta os versos 34–36 como fundamento para a teoria do mito do arrebatamento. Não, percebam que o Filho do Homem já está ali e o que ocorre é a separação dos maus e dos bons. Esta sentença perturba os discípulos, pois, para eles, Israel não passaria por isso, somente as nações pagãs, por isso eles não pergunta “quando”, como os fariseus, mas sim “onde isso acontecerá”. A resposta é um ditado popular daquela época: Onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres

O que Jesus quer dizer? Quem nos ajuda a compreender melhor este ditado é Fritz Rienecker, que no Comentário Esperança diz o seguinte:

Esse ditado dos abutres que se reúnem em torno do corpo em decomposição ocorre diversas vezes no AT (cf. Jó 39:30; Hc 1:8; Ez 39:17). É uma metáfora para a obrigatoriedade, inevitabilidade e onipresença do juízo. Os abutres farejam e visualizam os cadáveres que lhes servem de comida de grandes distâncias. Os abutres são imagem dos executores da condenação, que fazem desaparecer a podridão. A sentença proverbial sobre a carniça e os abutres que a devoram expressa a seguinte idéia: quando o mundo estiver maduro para o juízo, o juízo acontecerá com tanta certeza e precisão como os abutres comparecem em torno de um cadáver combalido.

Sabe o que aprendemos com isto? Que o Reino de Deus é uma construção constante em nossas vidas. Que todos os dias somos desafiados a viver estes valores que estão no meio de nós. “O Reino de Deus já está entre vocês” é a verdade de Cristo para nós. O Reino de Deus acontece quando vivemos estes valores. Por isso a poesia de Milton Nascimento e Fernando Brant faz todo sentido com este texto: não são os feitiços para ter poder que farão o Reino de Deus aparecer.

O Reino de Deus não é projeto político-partidário, nem da direita conservadora, nem da esquerda progressista. O Reino de Deus está acima disto tudo, pois é construído diariamente por aqueles que vivem os valores do Reino em suas casas com suas famílias, no bairro com seus vizinhos, nas ruas, nos trabalhos, nos empregos, no dia a dia, na realidade apodrecida cercada de abutres de uma sociedade corrompida pelo desejo de poder e carente de vida. E sabe quem é que promove a vida? O Reino de Deus. E sabe quem é parte do Reino de Deus? Você e eu.

Portanto, pare de ser um fariseu, esperando uma solução messiânica para os problemas reais ao seu redor. Encare a realidade com os valores do Reino. É por isso que Zacarias é um dos profetas que mais inspiram os autores do Novo Testamento, porque ele aponta para uma realidade de Reino de Deus construído na paz e no poder do próprio Deus, não de homens. Diz o profeta: “Assim diz o Senhor a Zorobabel: Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”. Zacarias 4.6. Não é com o poder de armas, nem de exércitos, mas pelo poder do Senhor dos Exércitos, aquele que tem nas mãos todo o poder! Não é pela força das armas dos homens, mas pelo poder de Deus!

O Reino de Deus não precisa de uma nação cristã para acontecer. O Reino de Deus não precisa de uma política e uma sociedade cristianizada para acontecer. O Reino de Deus precisa de vida. Por isso os cristãos são pela vida, liberdade, verdade, justiça, alegria, felicidade, amizade. O Reino de Deus é um Reino de amigos. Amigos mais chegados que irmãos. A utopia de Milton Nascimento e Fernando Brant, para nós, quando lida, ouvida e cantada na perspectiva do Reino de Deus, não é utopia, é o desejo ardente para que o Reino de Deus se concretize. Maranta! Ora vem Senhor Jesus! Enquanto ele não vem, nós vamos ao encontro daqueles que estão morrendo nas mãos dos podres poderes deste mundo.

Vamos viver este Reino, pois, no fim das contas… restará um mundo apodrecido para ser recriado, uma nova terra, um novo céu. Criação redimida e recolocada diante de Deus, que será sua fonte de vida eterna e perene, sob o comando do Rei de amor. O que Jesus está dizendo aos discípulos não é para assustá-los, mas para convidá-los a viver o Reino de Deus como uma realidade presente, sabendo que, no tempo certo, ele voltará. Haverá um novo amanhã, uma nova cidade.

A cidade santa em Apocalipse 21 e Vilarejo de Marisa Monte

Marisa Monte é um dos nomes da música brasileira que conseguiu escapar de rótulos que a imprensa e crítica musical tentaram lhe impor no início da carreira e trilhou o próprio caminho. Tendo despontado no final da década de 1980, tentaram colar nela rótulos como “sucessora de Elis Regina”, o que ela demonstrou, aos 19 anos, ter muita maturidade para rechaçar e construir sua carreira de maneira tão sólida que, em menos de uma década, conseguiu tirar das mãos da gravadora os direitos autorais de suas canções e montou sua própria produtora, sendo detentora dos direitos de sua própria obra.

No ano de 2006 Marisa Monte lançou dois álbuns distintos, porém, profundamente interligados: Infinito Particular e Universo ao Meu Redor são, respectivamente, o quinto e sexto álbum da cantora. Os álbuns expressam exatamente o que se propõe em seus títulos: um olhar poético e musical sobre o mundo de dentro da artista, e o mundo de fora dela, quase que um diário que revela o olhar de um mundo em constante transformação e sofrendo as dores que sofre.

É no álbum Infinito Particular que está a faixa Vilarejo, uma expressão utópica de uma pequena cidade onde a esperança termina, visto que se consolidou um mundo de paz e de vida plena. A segunda faixa do álbum é um convite para uma vida simples, possível e real. Vamos à letra:

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

As imagens desta canção não são nenhuma novidade no cancioneiro brasileiro. Uma cidade, pequena, singela, pura e ingênua, onde o campo e as casas se encontram em harmonia. Os mais antigos, como eu, vão se lembrar de outra canção, de Zé Rodrix gravada por Elis Regina, que fala dessa imagem: Eu quero uma casa no campo / Do tamanho ideal, pau a pique e sapê / Onde eu possa plantar meus amigos / Meus discos e livros e nada mais… A diferença está nas imagens, enquanto Casa no Campo é mais intimista e pessoal, Vilarejo não quer só os amigos, que toda gente que cabe lá. E por isso Vilarejo dialoga mais com o tema de hoje que Casa no Campo.

Esse desejo pelo singelo, puro e simples, associado ao campo, à cidade pequena, ao vilarejo, não é restrito apenas à poesia. As ciências sociais possuem diversos estudos que apontam para uma memória afetiva coletiva do brasileiro para com o campo. Isto se deve, muito, por conta do acelerado processo de urbanização que vivemos no século passado. Apenas para seu conhecimento, em 1940 éramos uma sociedade com 70% da população rural e apenas 30% urbana. Em 1970 já éramos 44% rural e 56% urbana e, segundo o censo 2010, somos uma sociedade 84% urbana e 16% rural. Não é incomum encontrarmos pessoas que nunca vivenciaram o campo, o dia a dia rural, desejarem uma casa no campo, uma vida mais simples, sem os ruídos constantes da cidade que não para nunca.

No fim das contas…o que Vilarejo nos revela é que há uma forma de se viver mais simples e sem as complexidades da vida, que muitos querem nos convencer ser algo natural do ser humano. É um desejo genuíno de esperança e paz.

O que Vilarejo tem a ver com Apocalipse e a cidade santa? Por que esperamos esta cidade descer do céu? E o que isso tudo tem a nos ensinar? Vamos ao texto de Apocalipse 21.1–7

1Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra já não existiam, e o mar também não mais existia. 2E vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, como uma noiva belamente vestida para seu marido.

3Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: “Vejam, o tabernáculo de Deus está no meio de seu povo! Deus habitará com eles, e eles serão seu povo. O próprio Deus estará com eles. 4Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre”.

5E aquele que estava sentado no trono disse: “Vejam, faço novas todas as coisas!”. Em seguida, disse: “Escreva isto, pois o que lhe digo é digno de confiança e verdadeiro”. 6E disse ainda: “Está terminado! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei de beber gratuitamente das fontes da água da vida. 7O vitorioso herdará todas essas bênçãos, e eu serei seu Deus, e ele será meu filho.

Antes de falarmos exclusivamente de nosso texto, precisamos falar do livro do Apocalipse. Esta é uma das cartas mais mal compreendidas do Novo Testamento. Aliás, já deu para perceber, a esta altura, que tudo que envolve literatura apocalíptica existe mais mito e invencionices que interpretação de fato.

É de consenso que o Apocalipse é uma carta de autoria do Apóstolo João, pelo menos era essa a associação feita pelos primeiros cristãos ao ler a abertura da carta, onde, por duas vezes, João se autorreferencia, primeiro em 1.1 Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar a seus servos os acontecimentos que ocorrerão em breve. Ele enviou um anjo para apresentá-la a seu servo João; depois em 1.4 Eu, João, escrevo às sete igrejas na província da Ásia. Ao longo do tempo prevaleceu a tradição e autoria ficou com o apóstolo.

A carta é escrita às sete igrejas espalhadas pela Ásia: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Após direcionar palavras diretamente a cada uma delas, João começa a falar dos acontecimentos que lhe foram revelados. O que o Apocalipse nos revela, de maneira teatral e figurada, é a imagem de um culto ao imperador sendo profundamente difundido e exigido ao longo do império, abalando a chamada paz romana, visto que os povos diversos se recusavam a fazê-lo, ou faziam um malabarismo teológico para justificá-lo. Havia, porém, um grupo periférico, perseguido pelo império e pelas religiões oficiais, que não se curvava de maneira alguma. Os pequenos cristos se recusavam a se dobrar diante do imperador, e pagavam com a própria vida.

É deste contexto de perseguição e morte, martírio e dor, que João escreve o Apocalipse. Toda e qualquer interpretação deste texto associando-o a eventos pontuais do tempo presente corre o risco de ser heresia. Por isso, não se deixe levar por falácias, mentiras e Fake News querendo associar eventos do livro do Apocalipse com os nossos dias. Lembre-se, o Apocalipse fala mais da esperança para um povo em perseguição, que dos últimos dias propriamente dito, e, quando aborda o fim da história, o faz na perspectiva da esperança, por isso o texto de hoje é tão fundamental para nossa fé.

O nosso texto, Apocalipse 21.1–7, numa primeira leitura, pode parecer desconectado do bloco de ensino dos capítulos 19 e 20. Mas não está. Após o juízo narrado no capítulo anterior, a concretização da vida plena se dá agora, no capítulo 21. As palavras de abertura, em 1.8, são retomadas aqui, em 21.7: Eu sou o Alfa e o Ômega. Uma vez consumado o julgamento da criação, a própria presença plena de Deus se faz saber diante de todos. A cidade santa, morada eterna da parte de Deus, desce para estar no meio do povo.

João retoma aqui uma imagem muito conhecida dos primeiros cristãos, principalmente dos de origem judaica: o tabernáculo, símbolo da presença de Deus no deserto da peregrinação do Egito à terra prometida. Não é um palácio imperial, castelo de reis, é um tabernáculo, de tecido, simples, feito para ser desmontado e carregado. Embora haja, nos versículos seguintes, menção ao muro da cidade e ao trono do cordeiro, este último não está no palácio, mas no tabernáculo.

É interessante atentarmos que João não descreve a volta ao paraíso de Gênesis. O Éden não é nossa morada eterna, mas sim uma cidade, santa, sem morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Permanecem, ainda, nesta cidade, elementos naturais como a árvore da vida e o rio de água viva que corre do trono.

A imagem descrita por João é o que deve preencher nossa mente e coração quando falamos de vida eterna. Mais que a beleza do lugar, sua grandiosidade e singularidade, duas características me chamam atenção nesta visão. A primeira, que “O próprio Deus estará com eles”. A presença de Deus será suficiente para a vida. Se você continuar a leitura do capítulo, verá que na nova Jerusalém não existirão algumas coisas que nós consideramos essenciais: 22 Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus, o Todo-poderoso, e o Cordeiro são seu templo. 23 A cidade não precisa de sol nem de lua, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é sua lâmpada. Apocalipse 21.22–23.

Não tem sol, não tem lua, nem templo para adoração. A presença de Deus é o suficiente. E nós podemos viver esta verdade hoje: a presença de Deus em nossas vidas, comunidade e família é o suficiente para nós. Quando nos reunimos para celebrar e cultuar, temos que ter em mente que a suficiência da graça de Deus nos basta. Todo o resto, até aquilo que consideramos insubstituível, é secundário.

A segunda característica que me chama atenção em nosso texto é a consequência da presença de Deus: Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre. Apocalipse 21.4. Para sempre. Não teremos mais dor. Para sempre! É quase que impossível concebermos uma vida assim, sem sofrimento. Viver é, para nós, sofrer. Sofremos quando nascemos, visto ser o parto um rompimento gigantesco do bebê com sua mãe. Nascer de novo, em Cristo Jesus, é outro sofrimento, visto que não é fácil enterrarmos o velho “eu” diariamente, é um processo doloroso, espinhos permanecem na carne, doendo, para nos lembrar que a graça de Deus nos basta.

Por isso as imagens invocadas por Marisa Monte fazem todo sentido para nós. Lá o tempo espera. Lá é primavera. Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Em todas as mesas, pão. Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção tem um verdadeiro amor para quando você for. É uma realidade idealizada, que contrasta com a realidade ao nosso redor. Inclusive, a cantora no clipe da música mostra cenas da realidade que vivemos enquanto canta sobre uma realidade desejada. Tal qual João contempla morte e perseguição ao seu redor, mas fala de vida e do fim do sofrimento. Estas imagens estão vivas em nós e devem ser cantadas e desejadas por cada cristão.

No fim das contas… a expectativa que temos de que tudo ira se consumar, que não há outra saída para a criação que não o julgamento e novo céu e nova terra, precisa estar viva em nossas mentes e coração. Tudo, absolutamente tudo que fazemos, deve ser feito na ardente expectativa da volta de Jesus. Maranata, ora vem senhor Jesus! Não quero com isso dizer que você deve cruzar os braços diante de um mundo mal, a mensagem do apocalipse não é essa, mas sim de que haverá sofrimento e dor pelo caminho, mas nós não deixaremos de viver aquilo que cremos e confessamos: Jesus é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, ele dá de beber gratuitamente das fontes de água viva. Maranata, ora vem senhor Jesus!

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Um ser deslocado, fazedor de coisas

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