No fim das contas…

Uma série de mensagens poético-musical sobre os apocalipses da bíblia e da vida. Parte 3 de 4

Acabou. É o fim. No fim das contas, o que restará? Se restará… Desde que se tem registro de dados da humanidade, se encontra, advindo da tradição oral, registro sobre o fim do mundo. Visões apocalípticas que geram medo e temor a respeito das condutas e comportamentos no tempo em que se vive.

Na Bíblia, nosso texto sagrado, não é diferente. Os profetas, os apóstolos e o próprio Jesus falaram sobre o fim da história e como eles apontam para a justiça de Deus e a consumação do que você e eu chamamos de tempo e espaço.

Na cultura popular também encontramos estas expressões. E aqui, restrinjo apenas à cultura brasileira. De Carmem Miranda a Marisa Monte, da MPB ao Axé, passando pelas diversas tradições e culturas de um país continental, o que não faltam são previsões, histórias e utopias sobre o fim dos tempos.

No fim das contas… pretende olhar para estas visões registradas no texto da Bíblia Sagrada em quatro perspectivas: O dia do Senhor, As bestas de Daniel, A fala de Jesus sobre o fim dos tempos e o tradicional livro do Apocalipse. Vamos olhar para estes textos dialogando com a arte de nosso país e como suas diversas expressões musicais retrataram este fim dos tempos ou a existência de um mundo ideal. É assim que hoje olharemos para…

O fim dos tempos segundo Jesus em Lucas 17 e Coração Civil de Milton Nascimento

O autor da canção de hoje talvez dispensasse apresentações. Ao menos deveria. No entanto, por experiências recentes, descobri que certos baluartes culturais de nosso país não são tão conhecidos assim e, por isso mesmo, passo a falar deste que é o maior poeta musical de nosso país, o melhor cantor, compositor e poeta. Nascido no Rio de Janeiro, numa favela na Tijuca, foi adotado por um casal de Três Pontas, MG, onde cresceu e começou sua carreira musical. Em Minas, Milton renasce enquanto ser humano democrático, sonhador, poeta e profeta de uma geração inteira.

Uma das memórias mais antigas que tenho é de um baú que ficava no escritório de nossa casa, na Gumercindo Couto e Silva, no bairro do Itapuã, em Belo Horizonte. Eu lembro de abrir este Baú e ir olhando as capas dos discos de vinil de meus pais. Dentre os discos, muitos eram dele, Milton Nascimento. A imagem do rosto de perfil, com a boca levemente aberta, num close entre a sobrancelha e o lábio inferior, que é a capa do álbum Caçador de Mim, é uma das imagens mais antigas que tenho em minha mente. Gravado e regravado, Bituca, apelido que recebeu na época de estudante em Belo Horizonte, já era um ícone. Não dá para descrever a dimensão deste homem que, neste ano de 2022 anuncia o encerramento de sua carreira. Emociono-me sempre que me refiro a ele, não dá para descrever a dimensão dele na minha formação como ser humano, cidadão e cristão.

Em 1981, Milton Nascimento lança Caçador de Mim, seu décimo quarto álbum de estúdio. A esta altura, Milton já era reverenciado dentro e fora do país como cantor e compositor. Deste álbum, além da faixa título, muito conhecida, temos ainda o clássico Nos Bailes da Vida. É no lado B deste álbum, como penúltima música, que está Coração Civil, a canção que fala de uma utopia possível, visto que existe, mas que ainda é utopia, visto parecer-nos impossível. O sonhador Milton assim diz sua utopia:

Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade dos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver

São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal

Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu viver bem melhor
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar

A música, parceria de Milton Nascimento com Fernando Brant, fala de coisas boas, de uma felicidade que nasce da vida, da alegria, da justiça, liberdade, amizade. Fala de uma mudança de realidade onde os uniformes, as armas e a violência são os meios de poder, para uma sociedade mais humana, real, e popular. Milton está claramente apontando para a realidade de seu tempo. Militares no poder, perseguição e violência. Mas ele também está falando de uma realidade maior, da história de uma nação cuja república nasce de um golpe militar. Milton está falando da necessidade de um coração civil numa nação militarizada. O também mineiro, jornalista e cartunista Rafael Senra, define muito bem a maneira como Milton consegue compor incluindo o mundo em suas canções, diz Senra:

Está presente nessa letra o toque lírico e poético que marcaram as obras do autor de Canção da América: o universal e o regional, a amizade e o senso de cidadania, sonho, menino, cidade, liberdade.

Este poder contemplador da realidade de Milton é expresso na abertura da música e se estende em sua segunda estrofe. São José da Costa Rica é um país da América Central que é o único da América Latina a constar na lista de democracias mais antigas da era moderna. O que há de tão especial em Costa Rica para inspirar o Brasil? O coração civil, uma nação feita por civis e para civis. Em 1º dezembro de 1948 o governo civil recém-empossado aboliu o Exército — o primeiro país do mundo a fazê-lo. E ao fazê-lo, transformou o antigo quartel em uma escola.

Ao longo do século XX, a Costa Rica enfrentou graves crises econômicas, ameaças à sua democracia, mas manteve sua política democrata e popular voltada para a paz e a construção de uma sociedade desmilitarizada. Foi assim que, em meados da década de 1980, o Presidente Óscar Arias Sánchez recebeu o Nobel da Paz por intermediar soluções pacíficas para as guerras civis na Nicarágua e El Salvador.

Todo este sonho de uma sociedade sem feitiços para imposição de poder é que inspira Milton Nascimento e Fernando Brant a escrever, cantar e sonhar. A utopia deles é um país de paz, sem armas, sem poder imposto pela força, com aquilo que o ser humano consegue fazer de bom.

No fim das contas… o que Milton e Brant nos propõe é a reconstrução de uma realidade a partir da perspectiva dos valores da primeira estrofe da canção: felicidade, alegria, justiça, liberdade e amizade. Estes não são valores impostos, mas cultivados e vividos com sinceridade.

O que Coração Civil tem a ver com Jesus e sua conversa com os fariseus e com os discípulos? Por que esperamos eventos apocalípticos grandiosos? E o que isso tudo tem a nos ensinar? Vamos ao texto de Lucas 17.20–37

20 Certo dia, os fariseus perguntaram a Jesus: “Quando virá o reino de Deus?”.

Jesus respondeu: “O reino de Deus não é detectado por sinais visíveis. 21 Não se poderá dizer: ‘Está aqui!’ ou ‘Está ali!’, pois o reino de Deus já está entre vocês”.

22 Então ele disse a seus discípulos: “Aproximam-se os dias em que desejarão ver o tempo do Filho do Homem, mas não o verão. 23 Dirão a vocês: ‘Vejam, lá está!’ ou ‘Aqui está ele!’, mas não os sigam. 24 Porque, assim como o relâmpago lampeja e ilumina o céu de uma extremidade a outra, assim será no dia em que vier o Filho do Homem. 25 Mas primeiro é necessário que ele sofra terrivelmente e seja rejeitado por esta geração.

26 “Quando o Filho do Homem voltar, será como no tempo de Noé. 27 Naqueles dias, o povo seguia sua rotina de banquetes, festas e casamentos, até o dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio, que destruiu a todos.

28 “E o mundo será como no tempo de Ló. O povo se ocupava de seus afazeres diários, comendo e bebendo, comprando e vendendo, cultivando e construindo, 29 até o dia em que Ló deixou Sodoma. Então fogo e enxofre ardente caíram do céu e destruíram a todos. 30 Sim, tudo será como sempre foi até o dia em que o Filho do Homem for revelado. 31 Nesse dia, quem estiver na parte de cima da casa, não desça para pegar suas coisas. Quem estiver no campo, não volte para casa. 32 Lembrem-se do que aconteceu à esposa de Ló! 33 Quem se apegar à própria vida a perderá; quem abrir mão de sua vida a salvará. 34 Naquela noite, duas pessoas estarão dormindo na mesma cama; uma será levada, e a outra, deixada. 35 Duas mulheres estarão moendo cereal no moinho; uma será levada, e a outra, deixada. 36 Dois homens estarão trabalhando juntos num campo; um será levado, e o outro, deixado”.

37 “Senhor, onde isso acontecerá?”, perguntaram os discípulos. Jesus respondeu: “Onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres”.

Quem começa a ler o capítulo 17 de Lucas, percebe que o evangelista está preocupado em falar de fé, perdão e cura. O texto anterior ao nosso é a cura dos dez leprosos, em que apenas um volta para dar glórias a Deus, a saber, o único estrangeiro. Neste contexto, o encontro com os fariseus parece deslocado. Lucas inicia o bloco com “certo dia…”, já para nos mostrar um distanciamento temporal e espacial dos acontecimentos anteriores. E de fato há, no entanto, este distanciamento não interfere na temática, como veremos a seguir.

Jesus está em mais um encontro com os fariseus, algo comum no evangelho de Lucas. Estes querem saber dele do Reino de Deus. Aqui precisamos entender a expectativa de Reino que eles tinham. Esperavam um reino messiânico, onde um grande salvador da pátria marcharia sobre as nações e entraria em Jerusalém para libertar a Judeia de uma vez por todas. Eles seriam meros espectadores deste agir, sem tomar parte da obra e da concretização deste Reino. Por isso a pergunta não é “Quem faz parte do Reino de Deus?”, pois eles se pressupõem como parte dele. Também não é “O que é o Reino de Deus?”, pois para eles está claro que é o domínio militar e político de Israel. A pergunta é “Quando virá o Reino de Deus?” pois pressupõe que ele virá e será aterrorizante e libertador.

Muitos de nós somos farisaicos neste sentido. Estamos aguardando o libertador, o salvador da pátria, o solucionador dos problemas. E para estes que assim esperam, tanto quanto para os fariseus de nosso texto, a resposta de Jesus é frustrante. “O reino de Deus não é detectável por sinais visíveis”. Não é um evento futuro, nem tão pouco mirabolante, com os feitiços para ter poder. O reino está entre vocês. Ao dizer isto, Jesus afirma que o Reino está ali, acontecendo com ele os discípulos, e os fariseus se negam a ver. Mas ele também está dizendo que está aqui, comigo e com você, e muitos se negam a ver. Jesus tenta abrir os olhos dos fariseus para que vejam que o Reino de Deus é, antes de mais nada, a ação espiritual em prol dos problemas reais e palpáveis, tal qual a cura dos leprosos que Jesus promovera no trecho anterior ao nosso.

É neste momento que ele chama seus discípulos para uma conversa mais particular. Aqui, num primeiro momento, Jesus está preocupado em preparar os discípulos para o que eles viveriam em breve. Muitos messias apareceram no século, I, e muitos aparecem até hoje, se apresentando como salvadores da pátria, do mundo, da sociedade. Jesus alerta: antes de pensar nisso tudo, vocês me verão sofrer. Apenas após o martírio e ressurreição é que a volta pode acontecer.

E como será? Quando será? Não sabemos. Jesus usa duas imagens muito conhecidas de seu público. Noé e Ló. Assim como no tempo de Noé, a vida acontecia normalmente quando o dilúvio chega de surpresa para todos, exceto Noé, assim será o retorno do Filho do Homem. Assim como no tempo de Ló as pessoas viviam normalmente até o dia da saída de Ló de Sodoma. De igual modo, a vida acontecerá normalmente até que o Filho do Homem apareça. Há uma alerta aqui: Quem se apegar à própria vida a perderá; quem abrir mão de sua vida a salvará.

Então Jesus fala da separação que acontecerá. Erroneamente se interpreta os versos 34–36 como fundamento para a teoria do mito do arrebatamento. Não, percebam que o Filho do Homem já está ali e o que ocorre é a separação dos maus e dos bons. Esta sentença perturba os discípulos, pois, para eles, Israel não passaria por isso, somente as nações pagãs, por isso eles não pergunta “quando”, como os fariseus, mas sim “onde isso acontecerá”. A resposta é um ditado popular daquela época: Onde estiver o cadáver, ali se ajuntarão os abutres

O que Jesus quer dizer? Quem nos ajuda a compreender melhor este ditado é Fritz Rienecker, que no Comentário Esperança diz o seguinte:

Esse ditado dos abutres que se reúnem em torno do corpo em decomposição ocorre diversas vezes no AT (cf. Jó 39:30; Hc 1:8; Ez 39:17). É uma metáfora para a obrigatoriedade, inevitabilidade e onipresença do juízo. Os abutres farejam e visualizam os cadáveres que lhes servem de comida de grandes distâncias. Os abutres são imagem dos executores da condenação, que fazem desaparecer a podridão. A sentença proverbial sobre a carniça e os abutres que a devoram expressa a seguinte idéia: quando o mundo estiver maduro para o juízo, o juízo acontecerá com tanta certeza e precisão como os abutres comparecem em torno de um cadáver combalido.

Sabe o que aprendemos com isto? Que o Reino de Deus é uma construção constante em nossas vidas. Que todos os dias somos desafiados a viver estes valores que estão no meio de nós. “O Reino de Deus já está entre vocês” é a verdade de Cristo para nós. O Reino de Deus acontece quando vivemos estes valores. Por isso a poesia de Milton Nascimento e Fernando Brant faz todo sentido com este texto: não são os feitiços para ter poder que farão o Reino de Deus aparecer.

O Reino de Deus não é projeto político-partidário, nem da direita conservadora, nem da esquerda progressista. O Reino de Deus está acima disto tudo, pois é construído diariamente por aqueles que vivem os valores do Reino em suas casas com suas famílias, no bairro com seus vizinhos, nas ruas, nos trabalhos, nos empregos, no dia a dia, na realidade apodrecida cercada de abutres de uma sociedade corrompida pelo desejo de poder e carente de vida. E sabe quem é que promove a vida? O Reino de Deus. E sabe quem é parte do Reino de Deus? Você e eu.

Portanto, pare de ser um fariseu, esperando uma solução messiânica para os problemas reais ao seu redor. Encare a realidade com os valores do Reino. É por isso que Zacarias é um dos profetas que mais inspiram os autores do Novo Testamento, porque ele aponta para uma realidade de Reino de Deus construído na paz e no poder do próprio Deus, não de homens. Diz o profeta: “Assim diz o Senhor a Zorobabel: Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos”. Zacarias 4.6. Não é com o poder de armas, nem de exércitos, mas pelo poder do Senhor dos Exércitos, aquele que tem nas mãos todo o poder! Não é pela força das armas dos homens, mas pelo poder de Deus!

O Reino de Deus não precisa de uma nação cristã para acontecer. O Reino de Deus não precisa de uma política e uma sociedade cristianizada para acontecer. O Reino de Deus precisa de vida. Por isso os cristãos são pela vida, liberdade, verdade, justiça, alegria, felicidade, amizade. O Reino de Deus é um Reino de amigos. Amigos mais chegados que irmãos. A utopia de Milton Nascimento e Fernando Brant, para nós, quando lida, ouvida e cantada na perspectiva do Reino de Deus, não é utopia, é o desejo ardente para que o Reino de Deus se concretize. Maranta! Ora vem Senhor Jesus! Enquanto ele não vem, nós vamos ao encontro daqueles que estão morrendo nas mãos dos podres poderes deste mundo.

Vamos viver este Reino, pois, no fim das contas… restará um mundo apodrecido para ser recriado, uma nova terra, um novo céu. Criação redimida e recolocada diante de Deus, que será sua fonte de vida eterna e perene, sob o comando do Rei de amor. O que Jesus está dizendo aos discípulos não é para assustá-los, mas para convidá-los a viver o Reino de Deus como uma realidade presente, sabendo que, no tempo certo, ele voltará. Haverá um novo amanhã, uma nova cidade é sobre isto que falaremos em nossa próxima mensagem.

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Um ser deslocado, fazedor de coisas

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Giovanni Alecrim

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Um ser deslocado, fazedor de coisas