Do direito à tristeza do cristão

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Uma geração de evangélicos vive achando que tristeza é pecado, por isso participam de “cultos” onde realizam a catarse de suas frustrações, mas sem resolvê-las.

Há um conceito, equivocado a meu ver, de que o cristão não tem direito a se sentir triste. Deus nos formou dotados de sentimentos e não somos todos feitos para vivermos num só polo. Temos o direito a tristeza e todos estão sujeitos a viver com ela, e não necessariamente nela. O próprio salmista expressa esse sentimento de tristeza e sua temporalidade:

Por que você está deprimida, minha alma? Por que chora de melancolia? Olhe para Deus, e logo o louvará outra vez. Ele põe um sorriso no meu rosto. Ele é o meu Deus. Salmo 42.5

O Salmista nos deixa clara a consciência de sua tristeza. Ele está triste e sabe que, todo aquele sentimento, tem prazo certo para acabar. Assim que olhar para Deus, terá um sorriso no rosto. No entanto, ele reconhece sua tristeza. O sentimento não é pecado, pecado é tornar-se preso a ele. A tristeza toma conta de nós em momentos específicos e há na Bíblia diversos exemplos sobre isso. Um dos mais conhecidos é Elias, após fugir de Jezabel e se esconder no deserto. No entanto, não foi ele que escolhi para falar de tal sentimento, preferi olhar para outra pessoa que é a razão de ser da nossa fé, preferi olhar para Jesus.

Então, eles foram para um jardim chamado Getsêmani. Jesus disse aos discípulos: “Fiquem aqui enquanto vou orar mais adiante”. Levando consigo Pedro, Tiago e João, ele mergulhou em grande agonia e declarou: “A tristeza que sinto é uma tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem comigo”. Marcos 14.34

Jesus está no Getsêmani. A hora de sofrer as dores se aproxima e ele está agoniado. Sente sua tristeza. Sofre com ela. O mestre passou por tal sentimento diante da tarefa que havia para cumprir. A tristeza não era um sentimento novo para Jesus. É diante de outra morte que ele também sua tristeza, a morte de Lázaro:

Jesus viu Maria chorando e viu as pessoas que estavam com ela chorando também. Então ficou muito comovido e aflito e perguntou: “onde foi que vocês o sepultaram?” “Venha ver, senhor!” — responderam. Jesus chorou. João 11.33–35

Diante da tristeza da morte de Lázaro, Jesus sente a dor do outro, sente a própria dor de perder um amigo muito próximo. Todos sofrem, todos sentem a dor da perda das irmãs naquele momento, diante do túmulo.

Todos estes exemplos são pequenas amostras de como a tristeza faz parte do ser humano, compõe a nossa essência e não se passa pela vida sem experimentar tristeza. Quem não se entristece está enfermo e precisa se tratar. Por isso, as catarses realizadas nos “cultos” evangélicos são a oportunidade, de quem vive com sorriso no rosto, de colocar para fora as tristezas represadas durante a semana. A falta de compreensão da tristeza e do que ela é e como convivemos com ela, faz com que pessoas se frustrem com Deus e percam sua fé, por acreditarem que viveriam as conquistas sociais e financeiras que um alegre cristão merece, mas o cristianismo não promete conquistas, em última análise, nos diz que teremos perdas aos olhos da sociedade, mas temos a melhor das conquistas, e ela nos é dada, a vida eterna.

Não desejo que você mergulhe na tristeza, mas que entenda que a tristeza é uma fase que vivemos e que temos a companhia de Jesus para passar por ela. Na tristeza, descobrimos as mãos estendidas ao nosso lado, descobrimos que repartir é melhor que reter, que desabafar é bom demais, mas superar traz satisfação. O povo de Deus é um povo de alegria, de festa, e a Bíblia mostra o quanto as festas estão presentes no dia a dia do povo.

Disseram ainda: “Voltem para casa e preparem uma festa, um banquete com muita comida e bebida. Repartam a comida com os que não têm, pois este dia é consagrado ao Eterno. Não fiquem entristecidos. A alegria do Eterno fortalecerá vocês!” Neemias 8.10

Se você é cristão e estão te criticando por estar triste, deprimido, não se faça de vítima, nem aceite essa crítica, temos o direito a passar por momentos de tristeza, sabendo que é um momento, uma circunstância, e que Deus está nos chamando para a festa da vida. Cuide-se, busque ajuda, se necessário, vá ao psicólogo, eles são instrumentos de Deus para nos ajudar. Se precisar ir ao psiquiatra, não tema, é um profissional capacitado por Deus para cuidar de nós.

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