Image for post
Image for post

¹Existe um versículo na Bíblia Sagrada, no Salmo 90, que diz

Ajuda-nos a entender como a vida é breve, para que vivamos com sabedoria.

Quando adolescente, lá nos idos de 1992, 1993, por aí, eu acreditava que não fosse durar muito tempo. Não sei bem a razão de tal crença, mas tinha a ideia que não passaria dos dezoito, quem sabe vinte anos de vida. Aqui estou eu, celebrando quarenta anos de nascimento e fazendo festa. Sim, quem diria que eu faria uma festa de aniversário novamente. A última que promovi foram convidadas vinte pessoas, três compareceram. Um sucesso do fracasso. Nem sei bem, na época, porque resolvi fazer aquela festa, na verdade, quem me conhece sabe que não sou dado a celebrações pessoais, ainda mais aniversário. Quando fico em pé, atrás da mesa com o bolo e os doces, me sinto sem saber o que fazer. Nada contra o aniversário dos filhos, da esposa, mas o meu mesmo, sempre fui avesso.

Acontece que cheguei aos quarenta anos. Ok, mas aos trinta eu não fiz nada. Por que fazer agora? Por causa do versículo que li lá no começo. A vida é breve. Se a expectativa de vida é de setenta, oitenta anos, posso dizer que estou na metade da jornada. Posso? Tolice. Entender a brevidade da vida é saber que ela pode acabar agora, já, nesse momento, ou daqui um piscar de olhos. Ninguém sabe a hora que vai morrer, logo, viver com sabedoria é viver o hoje, pois o passado é uma lembrança e o futuro não existe. Pessimista demais? Realista demais? Tire suas conclusões.

Celebrar quarenta anos de vida é um convite à reflexão. Dizem que existe uma crise dos quarenta. Se existe mesmo, a minha começou uns três, quatro anos atrás. Talvez mais. Desencadeou uma série de questionamentos, fez uma tormenta em várias áreas da minha vida e, no início de 2019 eu tive que parar e fazer o que todo ser humano em crise precisa fazer: puxar uma cadeira e conversar com as crises. Voltei para terapia. Sim, voltei, pois eu já havia feito terapia mais ou menos vinte anos atrás e agora necessitava voltar para ela. Deveria ter ido antes, bem antes. A terapia, nesta fase da vida, está me ajudando a compreender muito do que anseio e do que temo. É bom demais. Tão bom que começo a entender quando Dona Ulfênia, do alto de seus noventa e tantos anos, respondia ao tudo bem? do pessoal com um se melhorar, vira festa. Então vamos festejar!

Completar quarenta anos me faz parar e olhar para a história de vida e, ao olhar, a sensação de gratidão é grande. É interessante como a insatisfação com o que queria, mas não consegui alcançar aos quarenta, é logo suplantada pela deliciosa sensação de gratidão, quando rememoro momentos preciosos de minha vida, ao longo de tanto tempo, que na verdade, nem é tanto tempo assim. Vovó Noemi, hoje com noventa e quatro anos, costumava cantar o hino Conta as muitas bênçãos para dizer o quanto devemos ser gratos. Sempre gostei disso. Gratidão é mais que uma expressão, é uma forma de se viver. E por falar em vovó, lembrei do vovô Júlio que amava repetir Isaías 22.13, com um errinho de português para dar um toque especial: Comamos e bebamos, que amanhã morreramos (sic). Mais noção de brevidade de vida que saber que amanhã vamos morrer, eu desconheço.

Sim, a vida é breve. A brevidade da vida é o que atormenta, mas também fascina a humanidade. Como pode o tempo ser tanto e ao mesmo tempo tão pouco? É, esse jogo de palavras enlouquece a gente. Talvez a saída seja olhar para a vida como uma história que se escreve enquanto se vive e, diante das dificuldades, buscar o avesso da história, o revés, o ponto de virada talvez seja difícil, mas necessário. É o que Metal Contra as Nuvens, minha música preferida da Legião Urbana, diz no final

E nossa história, não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz.
Teremos coisas bonitas prá contar.
E até lá vamos viver
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe para trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos².

No final, meus caros, teremos a noção de que apenas começamos, nem andamos tanto tempo assim, quer tenhamos vinte, quarenta, oitenta ou cem anos de idade. Todo o tempo do mundo nos parecerá pouco, e ainda assim, terá sido muito, ou o suficiente. A confiança em nós mesmos nos levará para o entendimento de a caminhada da vida é feita de recomeços. Se a vida começa aos quarenta, eu acabei de nascer. Só que ela começou há muito tempo, e agora, ela recomeça. No meu infinito particular, eu olho para o presente sabendo que é o que tenho, e isto me basta. Tenho o presente, tenho todos os sonhos do mundo. Nenhum tempo foi perdido. O mundo começa agora, apenas começamos…

¹Texto escrito como roteiro para gravação do Podcast Café com Alecrim

²Letra de Metal contra as nuvens ©Corações Perfeitos Edições Musicais Limitada. Compositores: Renato Manfredini Junior / Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfá

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store