Quando as coisas não estiverem bem vá até ele

orei por dez anos com minha avó Noemi. Ela tinha um baú de madeira, desses antigos, que fiz questão de herdar. Está ao lado da minha cama. Nele ela guardava seus novelos e agulhas para crochê, alguns livros, cadernos e sua Bíblia Sagrada.

Uma das minhas lembranças mais antigas é meu pai, na sala da casa da Gumercindo Couto e Silva, em Belo Horizonte, MG, abrindo o baú, tirando um LP do Milton Nascimento e colocando para tocar.

Estas lembranças me remetem ao passado, a um lugar de conforto emocional que me colocam diante de um momento da vida em que havia tanta poesia no ar que me é impossível hoje separar o real do idílico em minha lembrança.

Hoje, com quarenta e dois anos, me pego indo até o baú de minhas memórias para revisitar os cheiros e sons de um tempo passado. O que isso significa? Que há no passado algo seguro que nos permite ir até ele, pelas lembranças, para reorganizar os pensamentos. No momento que escrevo este texto estou com fone de ouvido tocando Sá, Rodrix e Guarabyra, mais uma lembrança que tirei do baú e que me faz pensar em como vivo e como quero viver.

É importante cultivarmos boas lembranças para que elas nos auxiliem na nossa jornada. Ouvimos tanto sobre transformação, potencial, foco, progresso, crescimento pessoal, mas não há crescimento sem raízes sólidas, bem estruturadas e emocionalmente seguras. Parece utópico ter isso tudo? E é mesmo, por isso faço terapia, para manter o utópico diante dos meus olhos.

Não posso encerrar este texto sem antes fazer um alerta. Quando você se sentir inseguro, incapaz, desmotivado, desestimulado, vá até o baú, mas não fique lá. O baú tem uma função: guardar. O poeta maranhense Antônio Cícero diz em um poema do mesmo nome que

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Guarde em seu baú as boas lembranças, não deixe que as más ocupem espaço. Leve com você as memórias que trazem esperança, não as que te limitam.

Pastor, escritor e apaixonado por tecnologia | Aprendendo com Jesus a leveza de viver | Pastor desde 2006 | Escritor desde 2007 | https://giovannialecrim.com.br

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