A carta da alegria: alegria em motivar

Em tempos de profundas tristezas e clima tenso na política, sociedade e economia, a boa nova de salvação vem para nos colocar na perspectiva da vida que realmente é vida. A vida que liberta, fortalece e cura. A vida em alegria que somente aqueles que superaram os desejos e anseios deste tempo são capazes de experimentar. Quando superamos as expectativas de nossos dias, encontramos nossa essência nas mãos daquele que nos chamou para uma vida de proclamação e sofrimento, e isto nos alegra demais.

É olhando para uma carta que é permeada de alegria que passamos juntos o mês de junho. Não foi, e não é um convite para nos alienarmos de tudo ao nosso redor, mas sim para nos alinharmos com a alegria que é viver a vontade de Deus. É assim que olhamos, em quatro domingos, para a carta de Paulo aos Filipenses.

Em nosso primeiro encontro falamos sobre o capítulo 1 e concluímos com quatro atitudes que devemos ter: 1. Transborde em amor. 2. Pregue por amor. 3. Honre a Cristo. 4. Viva seu privilégio. Em nosso segundo encontro falamos sobre o capítulo 2 e concluímos com quatro atitudes que devemos ter: 1. Amem-se mutuamente. 2. Brilhem por Cristo. 3. Apeguem-se à mensagem. 4. Honrem os líderes. Em nosso terceiro encontro falamos sobre o capítulo 3 e concluímos com quatro atitudes que devemos ter: 1. Alegre-se no que Cristo fez. 2. Conheça a Cristo. 3. Prossiga! 4. Imitem e sejam imitáveis. Hoje vamos ao último capítulo, o quatro e, ao final, mais quatro atitudes para vivermos. Vamos ao texto e, conforme formos lendo, por blocos, comentaremos o que está ali e situando no tempo e espaço o que está sendo colocado.

¹Portanto, meus amados irmãos, permaneçam firmes no Senhor. Amo vocês e anseio vê-los, pois são minha alegria e minha coroa de recompensa.

²Agora, suplico a Evódia e a Síntique: tendo em vista que estão no Senhor, resolvam seu desentendimento. ³E peço a você, meu fiel colaborador, que ajude essas duas mulheres, pois elas trabalharam arduamente comigo na propagação das boas-novas, e também com Clemente e com meus outros colaboradores, cujos nomes estão escritos no livro da vida.

⁴Alegrem-se sempre no Senhor. Repito: alegrem-se! ⁵Que todos vejam que vocês são amáveis em tudo que fazem. Lembrem-se de que o Senhor virá em breve.

⁶Não vivam preocupados com coisa alguma; em vez disso, orem a Deus pedindo aquilo de que precisam e agradecendo-lhe por tudo que ele já fez. ⁷Então vocês experimentarão a paz de Deus, que excede todo entendimento e que guardará seu coração e sua mente em Cristo Jesus.

⁸Por fim, irmãos, quero lhes dizer só mais uma coisa. Concentrem-se em tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é correto, tudo que é puro, tudo que é amável e tudo que é admirável. Pensem no que é excelente e digno de louvor. ⁹Continuem a praticar tudo que aprenderam e receberam de mim, tudo que ouviram de mim e me viram fazer. Então o Deus da paz estará com vocês.

Na mensagem passada disse que a carta aos Filipenses possuí quatro rupturas de estilo, tom e tema, sendo uma delas no capítulo 3 e as outras três no capítulo 4. Disse também que independente se é um bloco único com variações de vocabulário e tema, ou se três cartas compiladas em uma, tudo isso é secundário na interpretação do texto, visto seu conteúdo ser o primário. Estas rupturas são importantes de serem anotadas para compreendermos que em Filipenses temos um retrato não de um momento único daquela igreja, mas de um período e que, somados, nos dão uma ideia de como viveram aqueles nossos irmãos que encontraremos na glória.

O verso 1 do capítulo 4 encerra a advertência do capítulo 3 contra os falsos doutores. Já o verso 2 abre uma exposição que retoma as exortações à unidade. Em

certa medida, os versos de 2 a 9 estão ligados ao capítulo dois em sua temática, tom e tema. Além disso, o verso 8 usa a locução λοιπόν — “por fim” — exclusiva de Paulo para encerrar suas cartas, o que nos leva a pensar se 4.2–9 não seria o desfecho de 1–2. Como disse, é importante pontuarmos estas rupturas e pontuaremos as duas próximas, mas antes, vamos ao conteúdo dos versos iniciais de Filipenses 4.

É neste bloco que está o tema deste mês, da carta e a síntese de tudo que dissemos até aqui. Paulo faz uma exortação à alegria para Evódia, Síntique e ao “fiel colaborador”, que não sabemos quem é, mas com certeza é uma liderança ou mediador da Igreja a quem o autor da carta se referia desta maneira. Que maneira? ⁴Alegrem-se sempre no Senhor. Repito: alegrem-se! Tal recomendação vem no imperativo, para que seja vivida e não é uma alegria particular e pessoal, mas que se reflete no testemunho, por isso ele continua: ⁵Que todos vejam que vocês são amáveis em tudo que fazem. Lembrem-se de que o Senhor virá em breve.

A ordem para a vida em alegria é seguida da orientação ao testemunho. Todo testemunho é dado em consonância à alegria em Cristo e na alegria da espera pela volta de Cristo. Maranata! Esta alegria está fundamentada na confiança que o autor da carta nos recomenda no verso 6 e que, se vivida, se desdobrará na experiência falada por ele no verso 7. Coração e mente guardados em Cristo Jesus, os cristãos de Filipos poderão se concentrar naquilo que alimenta seu espírito para enfrentar as batalhas da vida: tudo que é verdadeiro, nobre, correto, puro amável e admirável. Aqui é importante lembrar que Paulo, mais uma vez com ousadia, aponta para si mesmo: ⁹Continuem a praticar tudo que aprenderam e receberam de mim, tudo que ouviram de mim e me viram fazer. Você e eu teríamos tal coragem?

Continuemos no texto.

¹⁰Como eu me alegro no Senhor por vocês terem voltado a se preocupar comigo! Sei que sempre se preocuparam comigo, mas não tinham oportunidade de me ajudar. ¹¹Não digo isso por estar necessitado, pois aprendi a ficar

satisfeito com o que tenho. ¹²Sei viver na necessidade e também na fartura. Aprendi o segredo de viver em qualquer situação, de estômago cheio ou vazio, com pouco ou muito. ¹³Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças. ¹⁴Mesmo assim, vocês fizeram bem em me ajudar na dificuldade pela qual estou ­passando.

¹⁵Como sabem, filipenses, vocês foram os únicos que me ajudaram financeiramente quando lhes anunciei as boas-novas pela primeira vez e depois segui viagem saindo da Macedônia. Nenhuma outra igreja o fez. ¹⁶Até quando eu estava em Tessalônica, vocês enviaram ajuda em mais de uma ocasião. ¹⁷Não digo isso porque quero receber uma oferta de vocês. Pelo contrário, desejo que sejam recompensados por sua bondade.

¹⁸No momento, tenho tudo de que preciso, e mais. Minhas necessidades foram plenamente supridas pelas contribuições que vocês enviaram por Epafrodito. Elas são um sacrifício de aroma suave, uma oferta aceitável e agradável a Deus. ¹⁹E esse mesmo Deus que cuida de mim lhes suprirá todas as necessidades por meio das riquezas gloriosas que nos foram dadas em Cristo Jesus.

²⁰Agora, toda a glória seja a Deus, nosso Pai, para todo o sempre! Amém.

Aqui temos mais uma ruptura de estilo, tom e tema. A carta poderia muito bem ter encerrado em 9, mas continua. Paulo agradece aos Filipenses pelos dons que acaba de receber por meio de Epafrodito. É interessante um agradecimento caloroso no fim da carta, visto ser usual nas cartas que eles aconteçam nas palavras iniciais e as exortações sejam no final. Pierre Dornier (sacerdote de São Sulpício, professor de Sagrada Escritura em Orleans) e Maurice Carrez (pastor da Igreja Reformada e professor no Instituto de Teologia de Paris e no Instituto Católico da mesma cidade), dizem eles:

Digamos enfim que se o bilhete de agradecimento (4.10–20) pertence à carta que Epafrodito levou a Filipos, depois de sua cura (2.25), devemos

reconhecer que Paulo demorou muito a agradecer aos seus benfeitores, porque muitos acontecimentos se sucederam e muitos contatos tiveram lugar entre Paulo e a comunidade de Filipos depois do envio dos socorros: Epafrodito caiu doente, quando estava junto de Paulo, a notícia desta doença chegou a Filipos, e os filipenses fizeram saber suas preocupações a este respeito. Tudo isso supõe várias semanas, durante as quais Paulo teria podido exprimir seu reconhecimento, senão por outro, pelo mensageiro de 2.26 que comunicou aos filipenses a doença de Epafrodito. Compreende-se assim que muitos autores considerem o bilhete de agradecimento (4.10–20) como uma carta primitivamente independente, escrita por Paulo logo depois de ter recebido os socorros.

E é neste bilhete de agradecimento que nos chega o testemunho a que Paulo evoca os filipenses nos versos 6 a 9. Ele mesmo expressa sua confiança em Deus por meio de seu testemunho: Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças. O verso 13 está no top 5 dos versículos mais mal interpretados e usados fora de contexto pelos cristãos do século XXI, usado frequentemente na versão de Almeida: Tudo posso naquele que me fortalece. Se lido assim, sem o verso 12, parece mais frase de autoajuda, motivacional barato e sem fundamento, mas quando lido na perspectiva do verso 12, é um convite a encontrar alegria e força em toda e qualquer situação que se passe: é mais sobre saber viver debaixo da vontade de Deus do que poder fazer o que se quer.

Paulo enfatiza, neste trecho, sua alegria pelas ofertas recebidas e a confiança de que os filipenses são abençoados por serem generosos e não gananciosos. Paulo está ciente que sua condição é amenizada pela graça de Deus que move o coração dos filipenses em direção à generosidade e sabe que Deus os suprirá em suas necessidades.

Vamos ao final da carta

²¹Transmitam minhas saudações a cada um do povo santo em Cristo Jesus. Os irmãos que estão comigo também mandam lembranças. ²²Todo o povo santo daqui lhes envia saudações, especialmente os que pertencem à casa de César.

²³Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja com o espírito de vocês.

Aqui acontece a quarta e última ruptura de escrita, tom e temática, encerrando assim a carta. Não é possível precisar a que bloco este trecho possa ter pertencido originalmente. É mais provável que ao primeiro bloco, dos capítulos 1 e 2, mas é apenas uma hipótese. Independente das rupturas, chegamos ao final de uma jornada de convites constantes para que vivamos a alegria de servir a Deus e expressar nossa gratidão pela salvação.

Quero, para concluir, destacar quatro atitudes recomendadas por Paulo aos Filipenses e que devemos praticar em nossos dias:

  1. Sejam amáveis. Quando Paulo recomenda a Evódia e Síntique que sejam amáveis, ele o faz firmado na alegria que deve existir entre elas, firmada no Senhor. Vejo muito cristão sendo rude, falando o que quer e como quer, destratando as pessoas, sendo mal educadas e sem nenhum afeto e consideração. Não sejam assim, o amor é marca daqueles cuja alegria de viver está em Cristo Jesus. Se a vida está te afastando da alegria e do ser amável, você precisa realinhar sua leitura da Bíblia e oração para o princípio apostólico recomendado em Filipenses 4.
  2. Sejam confiantes. Não ocupe sua mente com preocupações sem sentido. A recomendação e não nos preocuparmos com coisa alguma. Quando a necessidade e a urgência estiverem diante de ti, ore a Deus pedindo o que precisa e agradecendo por tudo que ele já fez. O ato de entregar para Deus nossas necessidades traz paz ao coração. Tendo paz, nossa mente e coração estará nas mãos de Jesus e ele nos mostrará o caminho para que nossas necessidades e urgências sejam supridas conforme a vontade do Pai.
  3. Sejam satisfeitos. Paulo, ao agradecer as ofertas dos Filipenses afirma que sabe como é ter a satisfação de vida: é viver em Cristo, pois como ele, tudo vai bem, mesmo que pareça ir mal. Pode ser com pouco, ou com muito, com Cristo temos o que é necessário para a vida. A sociedade de consumo cria em nós necessidades que não temos, desperta vontades que não conhecíamos e nos impulsiona a comprar com o que não temos. Em Cristo aprendemos a ser satisfeitos com tudo o que temos, não temos ou que teremos um dia.
  4. Sejam gratos. Por fim, Paulo agradece aos Filipenses toda ajuda recebida deles, não apenas naquele momento, mas durante todo seu ministério. Ele soube reconhecer o valor daqueles que os ajudaram. Seja uma pessoa grata. Mesmo quando alguém tem a obrigação de fazer algo para ti, agradeça. Gratidão é uma expressão daqueles cujo coração está entregue nas mãos de Deus. O novo coração dado a nós por Cristo é um coração grato.

Concluímos assim nossa jornada pela carta aos Filipenses. No fim de tudo, fica para nós a missão de vivermos os valores desta carta em nossa jornada cristã. Você e eu somos a carta viva da alegria que as pessoas leem quando se encontram conosco. Testemunhe do amor de Deus, fale de Cristo para as pessoas, revisite os valores aqui mencionados ao longo deste mês, não deixe de viver o evangelho. Temos pessoas demais se dizendo cristãs e de menos vivendo a alegria do Evangelho em suas vidas. Vamos ser a carta da alegria a levar as boas novas de que não está nada perdido, há salvação em Cristo Jesus. Maranata!

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Um ser deslocado, fazedor de coisas

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